
ENTREVISTA
Ainda no início desta semana, o jornalista Napoleão de Almeida entrevistou o vice-presidente do Coritiba Vilson Ribeiro de Andrade e abordou diversos assuntos de interesse da Nação Alviverde. Na ocasião, também estiveram presentes o gerente financeiro Walter Souza, o gerente administrativo Doth Leite, o gerente de marketing Roberto Pinto e o coordenador de futebol Felipe Ximenes.
No início, quando perguntado sobre o atual momento financeiro do Coritiba em consequência dos acontecimentos do dia 06/12/09, Vilson Ribeiro foi bem claro: "O que aconteceu naquele dia, com o estádio interditado, R$ 600 mil de multa e 30 jogos, quando resolvemos assumir o clube, a situação era de difícil sobrevivência. Se fosse uma empresa, fecharia. Só sobreviveu porque é futebol e tem paixão. Nós tínhamos R$ 10 milhões de dívida vencida e uma projeção de déficit de R$ 30 milhões", disse, já apontando as principais estratégias adotadas para combater o problema e mostrando otimismo: "Começamos a trabalhando credores, que nos ajudaram, prorrogando os prazos e parcelando as dividas. Isso nos ajudou muito naquele momento. Saíram 19 jogadores, o que reduziu o déficit para R$ 20 mil. Trouxemos meninos da base, com custo mais baixo que o Marcelinho Paraíba, Carlinhos e outros aí. Em dezembro, tínhamos 12 mil associados. Caímos para 2,5 mil em janeiro. Foi um desastre. Hoje, a situação é difícil, mas administrável", completou.
Já em relação ao número de sócios, o diretor mostrou-se um pouco desapontado e revelou metas para que o Coritiba se torne um clube sustentável a partir da contribuição dos associados: "A gente varia entre 7 e 8 mil, é a média. Mas para o clube sobreviver, precisa de 20 mil sócios pagantes. Temos uma pesquisa em Curitiba, estimamos ter 600 mil torcedores. É impossível que não consigamos 20 mil sócios. O torcedor tem que entender que é fundamental ser sócio. Se ele não contribui financeiramente, fica difícil sobreviver. O orçamento do Grêmio é R$ 200 milhões/ano. O nosso chega com dificuldades a R$ 47 milhões. O São Paulo tem cerca de R$ 350 milhões; o Atlético, não sei direito, mais de R$ 50 milhões no ano passado. Então, para competir com eles, tem que arrecadação, fidelidade", analisou.
Sobre as dívidas do clube, Vilson apontou um dos principais problemas do Coritiba nos últimos tempos, as ações trabalhistas: "Em média, o prejuízo do Coritiba, contando lucro cessante, dá cerca de R$ 2,5 milhões/mês. Nós estamos com o salário em dia, porque damos prioridade aos compromissos para o clube viver. Os demais, vai negociando. É assim ou não sobrevive. Se não acontecesse tudo que aconteceu, o clube estaria equilibrado. R$ 10 milhões de dívida para o Coritiba não é muito. O problema é liquidez, fluxo de caixa. Outro grande problema são ações trabalhistas, queremos sanar isso em até 3 anos", esclareceu.
Depois de afirmar que considera a punição imposta pelo STJD pior do que a queda para a segunda divisão, em si, o dirigente disse estar trabalhando para o resgate da imagem do clube: "Hoje há uma visão diferente das coisas. As ações do clube, a relação com a torcida organizada, separando o que estava muito confuso. A polícia, que com o passar do tempo foi assumindo sua parcela de culpa. Nós estamos reconstruindo a imagem. As pessoas reclamaram quando nós aumentamos o preço do ingresso, mas isso teve dois objetivos básicos: o primeiro, aumentar o numero de associados. E depois, quando reduziram o preço, perdemos o controle de quem entrou no estádio", afirmou, para depois apontar a estratégia do Coritiba no que se refere ao assunto da invasão daqui para frente: "Devemos ter um parecer, que está sendo muito aguardado, que mostre que o poder público teve culpabilidade. Caso isso se confirme, vamos buscar indenização", completou.
Sobre a polêmica ação contra a Torcida Organizada Império Alviverde, Vilson disse fazer parte do passado, mas fez questão de reafirmar de que as pessoas permanecem sendo julgadas: "Deixamos de lado. Entendemos que é difícil personalizar a culpa, generalizar a torcida. Então achamos temerário. Mas existem as pessoas que estão sendo julgadas. E o próprio estado também está. Sendo assim, isso nos dá a possibilidade de buscar esses direitos", revelou.
Especificamente sobre o futebol, o vice-presidente Coxa-Branca teceu elogios à conduta de Ney Franco, mas fez questão de ressaltar o trabalho do coordenador Felipe Ximenes: "Ele tem um caráter sensacional. Eu nunca vi alguém tão sério como o Ney. Ele é uma referência. Essa semana mesmo, veio alguém do Corinthians aqui, tentando levar ele, com esse vai não vai do Mano Menezes da Seleção, e ele recusou de novo. E a campanha que ele fez. Se você analisar, ele terminou em sétimo. O Coritiba não caiu por causa do Ney; quase não caiu por causa dele. A manutenção foi importante também porque ele conhecia o plantel. Ele sabia quem ele não queria mais. Ganhamos etapas com a manutenção. E quero dizer que a manutenção do Felipe (Ximenes) foi fundamental, deixando o futebol debaixo do braço dele", apontou.
Sobre a questão da Copa de 2014 e as possibilidades que serão abertas aos clubes brasileiros, Vilson analisou a questão mais amplamente, apontando, inclusive, oportunidades que serão trabalhadas na base: "Nem entro no mérito de ser na Arena, não é o que nos preocupa. O que importa é deixar o CT pronto para abrigar seleções, buscar parcerias internacionais, tentar aproveitar os projetos ligados a copa. Nós aprovamos um projeto de R$3,8 mi para as categorias de base e estamos trabalhando em outro no valor R$ 4 milhões, via renuncia fiscal. E diga-se de passagem, não é simples. O Coritiba é o primeiro do Paraná a conseguir. Não quero falar do coirmão, mas eles mesmo ainda não conseguiram. Vamos investir no CT. São Paulo, Atlético-MG, Cruzeiro, todos fizeram isso. É um belo trabalho do Felipe. E isso nos prepara para o futuro. Podemos ter uma produção de jogadores, quem sabe fazer U$ 2 milhões por ano, vendendo 10 meninos. Hoje, temos 150 na base. Destes só 4,6% chega ao profissional. O resto se perde, não vende um", comentou.
Quando a pergunta foi sobre o caso Ariel, além de reclamar sobre falhas na Lei Pelé e pedir por alterações nas normas dos contratos de atletas estrangeiros, Vilson Ribeiro atacou os empresários: "Os empresários de uma forma geral não dão assistência positiva, pedagógica aos jogadores. Veja o caso de jogadores que estão até se envolvendo nas páginas policias: nunca foram preparados para ganhar o que ganham. O Ariel ganhava U$ 1,5 mil na Argentina. Veio ganhando U$ 10 mil. Negociamos, melhoramos os valores antecipadamente. Só que com a brecha jurídica, ele viu a oportunidade ganhar milhões. Me ligaram de Portugal, o empresário dele pediu 2 milhões de euros e U$ 100 mil/mês para o Benfica. Peraí, ele é o Messi? Negaram, claro. Ele tá indo para o clube do Chile (Unión Española), refugio do empresário dele", afirmou, revelando o destino do atacante.
Ao analisar as disputas da Série B, o dirigente afirmou que o Coritiba deve brigar com cerca de oito clubes para o acesso, mas projetou que muitos dos concorrentes podem ter problemas cm perda de jogadores: "Eu acho que a janela vai contribuir. E os clubes da primeira divisão, na medida que tiverem dificuldades, vão buscar na segunda (...) Falo dos Santo Andrés da vida, times de empresários, que não tem compromisso com torcida, história, títulos. Mas voltando, eu acho que o clube se decidirá entre seis a oito clubes", projetou.
O vice-presidente ainda voltou a provocar polêmica sobre a possível inserção de uma estrela de prata no escudo do clube em caso de título da Série B: "Eu penso que campeão é campeão. Os dois grandes campeonatos do Brasil são as séries A e B. Você tem que valorizar uma competição que, em 38 partidas, jogamos 10 fora de casa. Como não valorizar uma conquista que tem todas essas dificuldades? Se for campeão tem que pôr. Não tenho vergonha nenhuma de ser campeão da Segunda Divisão. Vencer uma batalha tem que ser comemorado. O torcedor tem que entender que o Coritiba está na segunda divisão. Ninguém queria, mas está", disse.
Por fim, Vilson ainda comentou sobre a possibilidade de, efetivamente, ser presidente do clube no futuro: "Eu não tenho vaidade política. Farei 62 anos em setembro, último dia em que jogaremos em Joinville. Tive uma carreira de sucesso, tenho uma família maravilhosa. O que me trouxe ao Coritiba foi amor e paixão, ver esse clube humilhado, destruído. Nós queremos mostrar que é possível conseguir. Em seis meses, ganhamos o Paranaense e estamos bem na Série B, contra todas as previsões. O Coritiba tem ótimos profissionais para assumir o clube. Agora, enquanto eu estiver vivo, aventureiro aqui, não entra mais. Hoje é profissionalismo (...) Eu seria hipócrita em dizer que não sonho em ser presidente do Coritiba. Mas o meu objetivo é preparar o clube para que quem sentar na cadeira possa exercer o cargo com tranquilidade. Esses sete meses foram muito difíceis para nós todos", finalizou.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)