
BOB COXA
Por Luiz Carlos Betenheuser Júnior (Coluna publicada originalmente nos COXAnautas em 28/11/2004)
Os anos 80, Curitiba e o Coritiba
Entrei para a Império no final dos anos 80, 1987 se minha memória não me engana. Naquele tempo a torcida tinha algumas dezenas de integrantes. Durante alguns anos foi assim. Lembro que em 1989 a torcida começou a tomar novas formas.
Naquele ano, o circuito cultural de Curitiba começava a ganhar novos integrantes: inspirados no cenário musical dos EUA e da Europa, a cidade ganhava novas bandas de Thrash, Black e Death Metal, Psychobilly, Punk, HardCore, Oi.
Antes delas, pouca coisa nova: no cenário Heavy, Iron Maiden, AC/DC e Black Sabbath dominavam a maior parte dos adaptos da música pesada, que em Curitiba tinha nas bandas Metal Pesado e depois, Cavaleiros do Apocalipse, as mais representativas deste cenário.
Uma onda de novos estilos musicais assolou Curitiba, ainda com características de uma cidade pequena. De um lado, os representantes mais antigos, dos anos 70 e início dos anos 80 receberam o impacto de bandas como Metallica, Slayer, Exodus, Testament e outros, ainda mais inusitadas por aqui, como Hellhammer, Possessed e pouco depois, Death. Naquele período, o Sepultura ainda era apenas uma banda de garotos de Minas, que com Chakal, Korzus e Dorsal Atlântica eram os precursores do estilo no país.
A mistura musical norte-americana e européia trazia mudanças no Brasil. Punks e HardCores aliaram-se aos Headbangers e heavies numa convivência pacífica, inspirados nos crossoveres do SOD, uma banda que pedia pela união entre Headbangers e Skinheads pelos versos de "United Forces", algo tipo como impossível pouco tempo antes. Disto surgiu a parceria entre Sepultura e RxDxPx. Em Curitiba não foi diferente.
No cenário internacional, esta mistura de culturas musicais era natural. Aerosmith, Slayer & Beastie Boys tocaram juntos, Metallica fazendo covers dos Misfits. Deste espírito de mistura cultural, surgiram bandas como o FNM.
Nos EUA, tal mistura é algo natural. Tanto é que Eddie Van Halen tocou no disco mais famoso de Michael Jackson. Uma bela jogada mercadológica do Rei do Pop, que com Van Halen nas guitarras (é dele os riffs na música Beat it) começou a ganhar espaço nas rádios rockers dos EUA. Mas sem dúvida, um trabalho que virou ícone na indústria fonográfica mundial. Para mim, o melhor trabalho do Black & White Michael.
A mistura de estilos de público nos shows das bandas locais e bandas de fora no início não foi tão simples, mas com o passar do tempo, a naturalidade dos encontros torno-se marca em Curitiba. Novas bandas surgidas, como Epidemic, Holy Death, Missionários, Abaixo de Deus faziam sucesso no circuito alternavito da cidade.
Outros segmentos de fãs da música, como os skatistas e surfistas começavam a aparecer pelos shows, motivados pelas parcerias do pessoal do Anthrax com los cycos do Suicidal Tendencies. Góticos, inspirados em bandas como Mission UK e Sisters of Mercy circulavam pelo Largo da Ordem e pelos teatros curitibanos.
Depois deste período, Curitiba nunca mais foi a mesma. Durante os anos 90 e 2000, ganhou muita população e a mistura de estilos tornou-se algo tão habitual que não causaria mais espanto.
Boa parte deste cenário cultural de Curitiba tinha um local de encontro em comum: as arquibancadas do Estádio Couto Pereira, mais precisamente nas imediações da faixa da Torcida Organizada Império Alviverde. Em 1989 a torcida cresceu, ganhou nova forma. Lado a lado, Headbangers, Skin Heads, Psychobillies, Punks, HardCores.
Era um mix de gente tão diferente nos estádios que causava até espanto para muitos outros torcedores. Uma cena insólita até então. Um mesmo time foi capaz de unir segmentos por tanto tempo tão diferentes. Este encontro nas arquibancadas do Couto trouxe espanto para muitos outros torcedores.
O Coritiba e a Império tem a responsabilidade neste encontro de culturas e tendências musicais. E de lá para cá, a Império Alviverde numa mais foi a mesma: deixou de ser uma torcida com 50 amigos para ser a maior torcida organizada do sul do Brasil.
De 1989 para cá, nunca mais a Império foi a mesma. Cresceu, ganhou formas diferentes, ficou mais forte, mais representativa, uma referência.
"Todos estes momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva" (trecho do filme Blade Runner).
Esta coluna é dedicada aos amigos, Fernando, Rudi e Marco Gordo, testemunhas vivas dos primórdios da Império nos anos 80 e companheiros de muitos shows por aquela Curitiba.
Valeu, moçada. Voltarei em breve com outras dicas culturais pra vocês. Se você tem uma banda, um grupo teatral, é cineasta, cantor, cantora, faz qualquer tipo de expressão artística ou cultural e quer divulgar aqui no COXAnautas, manda o material pra mim: bobcoxa@coxanautas.com.br.
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Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)