
BOB COXA
Colaborou o torcedor Coxa-Branca Luiz Carlos Betenheuser Júnior
Era 23 de janeiro de 1991. Cento e vinte mil pessoas no Estádio do Maracanã para ver a noite mais pesada da segunda versão do Rock in Rio. Foi o maior público daquela versão do Rock in Rio. Era a noite das bandas de Heavy Metal - exceto pela presença do Lobão -, com Guns N' Roses, Judas Priest, Queensrÿche, Megadeth, Lobão e Sepultura.
Se em 1985, quando o Iron, AC/DC, Ozzy, Scorpions e Whitesnake estiveram no Brasil e eu não fui ver, em 1991 eu estava lá. E vou contar um pouco daquilo que ficou na memória da noite mais pesada do Rock in Rio 2.
Foto histórica, dos primórdios do Thrash Metal no Brasil: Igor com a camisa do Epidemic, banda de Curitiba
O show começou ainda à tarde, com a apresentação do Sepultura. Antes de falar do show em si, falarei das belezas naturais do Rio de Janeiro. Realmente, uma cidade maravilhosa pelas mulheres que têm. Um festival à parte de mulheres bonitas. Milhares delas.
Os mineiros do Sepultura (exceto pelo paulista Andreas Kisser, que entrou na banda após a sua fundação) já tinham um renome internacional, apesar da pouca idade. Saídos de BH e deixando de lado o visual e o conceito Death Metal, em 1987 os caras lançaram um disco que marcou época no cenário Heavy brasileiro. Apesar da capa ter uma fraca produção, Schizophrenia foi arrasador para os padrões da música local. Com ele, a banda ganharia respeito mundial e despertaria a curiosidade da mídia brasileira, nitidamente com anos de má vontade com a música pesada.
A banda emplacou outro bom disco, já com uma produção bem mais elaborada e com bagagem internacional. Foi o Beneath The Remains (1989), que mostrava um Sepultura mais maduro e antenado ao momento Thrash Metal que dominava os EUA e a Europa. Em 91, o Sepultura já era a banda brasileira de maior repercussão mundial. E, felizmente para Max, já sem aquele cabelo louro, de franjinha, um visual de Dave Mustaine.
No Rio de Janeiro, os irmãos Max e Igor Cavalera, aliados com Paulo Jr. e Andreas, fizeram o lançamento mundial (isto mesmo, no Brasil, pois era Rock In Rio) do terceiro disco, o Arise, que teve uma versão de "Orgasmatrom" (cover do Motorhead) lançada durante o evento.
O show deles foi curto, baseado em músicas dois dois primeiros discos. Apenas trinta minutos. Trinta longos minutos de muita velocidade e ferocidade nas músicas. Hits da banda, como a cataclísmica, fantasmagórica, grutural "Troops of Doom" - que já havia sido tocada ao vivo, anos antes, no programa do Jô Soares -, uma músicas dos primórdios da banda, agitaram a horda mais pesada da platéia. Todos de preto, apesar do calor insuportável no Rio de Janeiro, o Sepultura fez um show poderosíssimo e que marcou época.
Por uma decisão errada da organização do festival, logo depois pisou no palco o guitarrista Lobão, acompanhado da banda. O clima quente deixado pelo Sepultura literalmente fez a audiência mais extrema do festival, os fãs do Sepultura, literalmente expulsarem o Lobão do palco.
Um festival de palavrões e garrafas d'água mineral foram arremessados ao palco. Lobão tocou duas músicas, xingou a platéia e foi embora. Pena, pois tinha mudado os arranjos e deixado a sonoridade bem mais pesada, apesar de anos luz distante do peso e da velocidade do show de abertura.
A saída precoce de Lobão deixou um hiato entre as apresentações. No final da tarde, surge os norte-americanos do Megadeth, um dos quatro cavaleiros do apocalipse do cenário Thrash dos EUA, ao lado de Metallica, Slayer e Testament.
Mustaine, o 'dono' do Megadeth
Dave Mustaine (guitarra e vocais), Marty Friedman (guitarra), David Ellefson (baixo) e Nick Menza (bateria). Eles eram o Megadeth e fizeram um baita show, baseado nos discos "Killing Is My Business...And Business Is Good!" (1984), "Peace Sells...But Who's Buying?" (1986) e "Rust in Peace" (1991).
O Megadeth, de Musteine, é uma banda diferente. Ele não tem um timbre agradável, mas compõe bem e costuma acertar na formação da banda. O baterista Nick Menza fez um trabalho sensacional. Pesadíssimo os dois bumbos da bateria dele. A propagação do som era impressionante. Musteine é, nas devidas proporções (e com todo respeito), um Ozzy do cenário Thrash. Ele é carismático, apesar de dizem, ter um senso de humor intragável na convivência. Mas no palco, ele faz um trabalho de destaque.
Tanto, que dois momentos foram marcantes: os backing vocals em "Peace Sells", cantados em uníssono, repetidas vezes, por dezenas de milhares de pessoas, e a apresentação da banda. Musteine deliberadamente não se auto-apresentou. Nem precisava. A platéia fez isto para ele, num momento incrivelmente poderoso na música.
O baixista Ellefson contou anos depois, sobre a apresentação nas terras cariocas. "Esta foi uma das experiências mais fantásticas que tive. Aquele festival era enorme e conhecido ao redor do mundo por quase todo fã de rock. Tocar para 140,000 pessoas foi ótimo. Também, tocar com outras ótimas bandas como o Guns 'N Roses, Judas Priest e Queensrÿche foi muito legal também. Um dos pontos principais para mim daquele dia, foi ver o quão grande o G 'N R havia se tornado, especialmente que eles tocaram antes de nós alguns anos atrás no festival em Donnington de 1988 na Inglaterra. Também, dividir o palco com o Sepultura foi monumental, porque eles estavam começando a ser uma grande banda internacional de metal naquele momento, e a única grande, vinda do Brasil naquela época". É isto, não preciso dizer mais nada.
A 'Operação Mente Criminosa' do Queensrÿche, obra-prima da banda
Geoff Tate (vocais), Michael Wilton e Chris DeGarmo (guitarras), Eddie Jackson (baixo) e Scott Rockenfield (bateria). Era o Queensrÿche, banda de Seattle, que criou a obra-prima do Heavy Metal, o conceitual "Operation Mindcrime", disco de maior sucesso da banda, feito em 1988. Com ele, a banda ganhou o estrelato e o reconhecimento pelas composições.
A banda veio ao Rio de Janeiro com a experiência de cinco discos gravados, entre eles o "Empire", de 90, também um disco bom, mas não tão bom quanto o "Operation". Na capital carioca, os norte-americanos fizeram um set list baseado nos seus dois últimos discos, acrescidos de algumas músicas dos primeiros trabalhos, entre elas, "Take Hold of the Flame", música que eles costumavam tocar no encerramento do show, um legado à juventude.
No palco, um equilíbrio marcante entre os guitarristas - uma guitarra multicolorida, como o neon das cidades e outra, em preto e branco -, a marcação do baixo e o timbre diferente nos pratos da bateria com correntes de Rockenfield, além do belíssimo timbre agudo de Tate, dono de uma amplitude vocal impressionante, a banda tocou clássicos como "Speak", "Breaking the Silence", "I Don't Believe in Love", "Eyes of a Stranger", "Revolution Calling", "Empire" (com o mix de efeitos sonoros na contraposição de sons e onomatopéias) e "Resistance", além de uma das antigonas, "Walk in the Shadows".
Um show bem bacana, com belos jogos de luzes, deixando um clima operístico nas músicas do "Operation", que traz uma história contada por partes (músicas).
O clássico Judas Priest em ação no palco do Maracanã
"Painkiller", "Screaming for Vengeance" e "Defenders Of The Faith" foram discos de sucesso do Judas Priest, uma banda tradicionalíssima do cenário do Metal.
Com Scott Travis na bateria (que substituiu Dave Holland), a dupla Glenn Tipton e o lendário K.K. Downing nas guitarras, Ian Hill no baixo e Robert Halford nos vocais, o Judas abusou do couro, das tarraxas e do clima de motociclistas ao se apresentar no Maracanã.
A banda fazia um som característico do Heavy Metal. Voz potente, duelos de guitarras. A galera se empolgou, pois o Judas fez uma apresentação forte, poderosa, com um som bem potente. Nem poderia ser diferente, estava no sangue dos caras.
Músicas como "The Hellion", "Electric Eye", "The Ripper", "Painkiller" (a galera gostou de fazer os backing vocals), "Breaking The Law" (um hit) e a poderosa "You've Got Another Thing Coming", a última do show do Judas, com mais de 8 minutos de música pesada para os fãs brasileiros. Halford & Cia. fizeram um show consistente, marcante, que se tornou mercadoria de peso no mercado fonográfico, com CDs e DVDs piratas rolando pela Internet.
A estrela principal da noite, os Gunners
O polêmico Axel Rose, com a camisa com homenagem ao Bukowski, entrou no palco do Maracanã com a responsabilidade de encerrar a noite mais pesada do Rock in Rio 2.
Em 91, já eram famosos os Gunners. Mais de 20 milhões de cópias vendidas em apenas dois álbuns lançados, a estrela da noite tinha uma legião gigantesca de fãs. Naquele ano, o Guns tocava em todas as rádios. Era uma onda avassaladora, o que cansou a legião mais fiel do Heavy Metal, pois o Guns 'N Roses havia se tornado pop (comercialmente falando).
Mas isto não foi motivo para os caras fazerem um show ao agrado de sua legião de fãs que lotou o Maracanã.
Os hits como “Paradise City”, “Welcome to the Jungle”, “Knockin’ on Heavens Door”, “Sweet Child o’Mine”, “I Used to Love Her”, já multi famosos, foram cantados pela multidão.
No Rio de Janeiro, Axel resolveu 'bater nas portas do céu' ao cantar para os brasileiros um cover de "Knockin' On Heaven's Door", além de uma nova (nas rádios), "Civil War". Destaque-se que os caras tocaram o tema de "O Poderoso Chefão". Outra: "You Could Be Mine", que virou trilha sonora do "Exterminador do Futuro".
Naquele momento do show, já estava cansado o suficiente para ficar sentado nas cadeiras (azuis) do Maraca. O gigantesco estádio de concreto literalmente tremeu ao som de “Paradise City”,. Literalmente, o concreto balançou, pois os caras eram realmente uma banda de um gigantesco público.
Confira alguns vídeos das músicas tocadas no Rock in Rio 2:
Sepultura & Lobão
Lobão: "Vida Louca Vida"
Sepultura: "Orgasmatron"
Megadeth: "Peace Sells"
Judas Priest: "You Got Another Thing Comin'"
Queensrÿche: "Take hold of the Flame"
Guns N' Roses: "Welcome to The Jungle"
Valeu, moçada. Voltarei em breve com outras dicas culturais pra vocês. Se você tem uma banda, um grupo teatral, é cineasta, cantor, cantora, faz qualquer tipo de expressão artística ou cultural e quer divulgar aqui no COXAnautas, manda o material pra mim: bobcoxa@coxanautas.com.br.
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