
PALAVRA DO OMBUDSMAN
Oito jogos sem vitória, 24 pontos disputados e só 3 ganhos, horas de bola rolando e nem um mísero gol marcado pelo que já havia sido o melhor ataque do Brasileiro de 2006 e a perda de quatro posições na tabela.
Esse “setembro negro” foi dos piores e ainda teve prorrogação, estendendo-se por alguns dias de outubro.
Dias turbulentos que culminaram em conflito na tensa volta da delegação depois de nova derrota em Fortaleza.
Rescaldo disso tudo: com exceção da Lei da Mordaça que, ao menos por uns tempos, impedirá a imprensa de ter acesso a declarações de treinador, jogadores e dirigentes – a não ser por meio do noticiário pasteurizado do site oficial do clube – nada deverá acontecer.
Tudo continuará como antes.
A tendência é que a crise seja acobertada e abafada, mas uma queda dos níveis extremos de pressão atingidos só virá com a retomada dos bons resultados.
Os dirigentes vão permanecer, o técnico vai continuar e o elenco não terá mudanças: nem reforços, pois a data-limite já passou, nem dispensas.
Ficará apenas a manifestação silenciosa de desagrado e contrariedade da torcida, que seguirá colocando faixas de ponta-cabeça mas incentivando, aplaudindo e querendo as vitórias – independentemente de quem tenha sido escalado.
Para o torcedor, o que menos importa no momento é quem esteja dentro da camisa do Coritiba, e certamente muitos que lá estão não reúnem condições nem mérito para estar dentro dela.
O que o torcedor quer – e cobra com razão – é vontade, empenho e determinação dos que a estejam vestindo. Mais um mínimo de técnica e categoria também.
Isso pôde ser visto no jogo de sábado contra o Marília, onde o Coritiba foi uma verdadeira montanha-russa durante toda a partida: apesar de magoada e ofendida, a torcida não negou o seu grito de incentivo nem por um minuto.
Mesmo vendo ir a campo os mesmos insuportáveis (Paulo Miranda, Jackson, Jefferson e Cristian) que personificam a atual fase negra. E mesmo vendo o Marília sair na frente, quase virar o placar ainda no primeiro tempo, quase empatar no início da fase final e quase marcar o terceiro antes de o Coritiba fazer o quinto.
A torcida, mais uma vez, fez o seu papel. E não fez nada que não tivesse feito antes, inclusive na derrota para o Brasiliense e no empate diante do São Raimundo.
E vai continuar fazendo, mesmo que os insuportáveis sejam mantidos como titulares.
Mas noto que parte do encanto se quebrou: os jogadores (não todos) se melindraram e não querem mais saber da torcida: deram-lhe as costas no sábado e continuarão a fazê-lo nos demais jogos no Couto Pereira.
Tudo bem. Acompanho e vibro com o Coritiba há quase 40 anos e conheço um pouco o perfil do torcedor alviverde, mesmo porque sou um deles. Ninguém deixará de apoiar e aplaudir o time pois todos sabemos que o objetivo final – o retorno à divisão principal e, se possível, com o título de campeão – transcende a eventuais antipatias ou contrariedades.
Contudo, o torcedor sabe quem é quem nesse elenco: apesar de aplaudido dentro do conjunto, Jefferson percebeu no sábado o quanto é querido pela galera.
O torcedor não irá dormir na pia se os jogadores não vierem aplaudi-lo ou agradecer pelo apoio. A ele basta que os jogadores honrem a camisa, se dediquem e, se possível, vençam.
Isso é o que realmente importa. O resto é jogo de cena.
Os 6 a 2 do Coritiba diante do Marília são de uma eloqüência tão gritante quanto enganosa.
O jogo foi duro e chegou a estar bem mais para o adversário, que esbarrou no travessão e nas intervenções de Artur.
Erros antigos até hoje não solucionados se repetiram. Bolas dominadas no ataque infantilmente perdidas (o primeiro gol do Marília começou com um presente de Jefferson), falhas de marcação em jogadas de bola parada (o segundo do Marília foi de uma didática cartesiana) e displicência nas saídas de bola (os campeões do passe errado Paulo Miranda e Jackson foram superados por Egídio, que fez uma besteira monumental no segundo tempo que custou um cartão amarelo a Rodrigo Mancha, o melhor em campo).
Mas, enfim, o Coritiba ganhou. Apesar, eu diria, de Jefferson e Paulo Miranda – ambos abaixo de qualquer crítica. E graças, eu diria, ao que jogaram – pela ordem – Mancha, Anderson Gomes, Ricardinho, Henrique, Cristian e Artur.
Jackson, Índio, Luis Paulo e Edu Sales (que perdeu um gol inacreditável) não foram decisivos, mas também não comprometeram. Já Andrezinho, que foi melhor no apoio ao ataque que Luis Paulo, comprometeu sua atuação jogando fora um gol feito. E Egídio... bem, ele é o Egídio: capaz de parar um ataque mortal roubando a bola do atacante sem fazer falta para, no momento seguinte, piorar a situação original com um passe errado.
Quanto a Paulo Bonamigo, penso que ele resolveu deixar a coisa fluir por inércia.
Ao escalar os malditos, dá-lhes oportunidade de responder na bola às vaias do torcedor. E ao promover um rodízio nas demais posições – muitas vezes por causa de suspensões – acaba dando chance aos demais.
Personalidade ele tem, pois mostra que não vai deixar a torcida escalar o time. Mas por causa disso muitas vezes erra, pois há vezes em que a torcida tem toneladas de razão. Para não dar o braço a torcer, sofre o Coritiba.
Na caixa postal do Ouvidor, durante a semana, o carteiro virtual deixou uma sacola de mensagens que podem ser resumidas em duas perguntas: “O que está havendo com o Coritiba?” e “Onde iremos parar?”
Juliano Richter, Giovani Zilli, Ismael Roth, Raul Morking, Ana Carolina Garrett, Lucas Chervenski e Raimundo Formighieri Neto foram alguns dos leitores que fizeram tais perguntas ao Ouvidor, indagando se uma eventual solução não passaria pela renúncia dos atuais dirigentes, dispensa dos jogadores que não querem nada com o batente e também do treinador, “burro e teimoso”.
A eles digo que, como Ouvidor dos COXAnautas, não disponho de nenhuma informação privilegiada – o que é um excelente sinal: tudo aquilo que nós, do site, tomamos conhecimento e confirmamos, repartimos com os leitores.
Claro que especulações, insinuações ou boatos também chegam até a gente, alguns até embrulhados para presente e com ares de verdade. Mas não queremos, não podemos e nem temos vocação para servir como um site de “lavadeiras”, propagando versões não confirmadas. Ainda que elas possam se ajustar a algumas vontades.
Se não saiu nos COXAnautas, creiam, é porque carece de confirmação.
Outros internautas perguntam se o incidente entre jogadores e torcedores no aeroporto teria tido conotação “pedagógica” e exercido alguma influência na vitória sobre o Marília.
Pessoalmente, prefiro acreditar que não. Caso contrário, todos estaremos correndo o risco de, doravante, antes de qualquer jogo de futebol, tomar conhecimento de “incidentes preventivos” para garantir que os jogadores vão realmente se empenhar em campo.
Luiz Fernando Ramos, internauta de Goiânia, diz que os jogadores do Coritiba “não precisavam exagerar” enfiando meia-dúzia no Marília. Concordo: será que não estamos desperdiçando nosso “estoque de gols” desta temporada? Será que os gols marcados desnecessariamente nesta partida não vão fazer falta mais adiante?
O leitor William Henrique Becker pede aos COXAnautas que usem seu poder de mobilização para continuar ajudando a colocar no Couto Pereira torcedores dispostos a incentivar o Coritiba. A ele, digo que esse é o único compromisso do site: informar e motivar o torcedor para que ele venha ajudar o Alviverde a ser cada vez maior, melhor e mais forte. Esse é o propósito do trabalho – dedicado, voluntário e não remunerado – de todos nós.
O internauta Cláudio Borrelli também escreveu argumentando que a revolta da torcida indo ao aeroporto esperar pela delegação do Coritiba foi motivada por uma situação de “desespero” que decorreu, unicamente, do “amor indescritível” pelo Clube e pela vontade de ver o time voltar a vencer.
Devo dizer ao leitor que não pretendo – nem me sinto autorizado a – julgar as atitudes de ninguém, e o que está feito, está feito. Só não acho que a violência seja o caminho mais razoável para resolver coisa alguma neste mundo. Neste episódio específico, ficou claro que a torcida foi cobrar atitude e reação dos jogadores até de uma maneira rude, é verdade, e que o confronto físico foi iniciado por um jogador – Índio - logo imitado por outros. Nenhum deles iniciante ou inexperiente.
A conclusão a que chego, então, é que os jogadores do Coritiba não têm o equilíbrio emocional nem o discernimento necessário para enfrentar o atual momento – que foi provocado por eles mesmos, não pelos torcedores, que só têm feito apoiar e aplaudir, chova ou faça sol. Se foram os jogadores que enfiaram o Coritiba nesse buraco, intencionalmente ou não, que tratem de tirá-lo. E que convivam com os torcedores da melhor maneira que conseguirem, pois se fossem de vitórias e não de insucessos os oito resultados consecutivos, não tenho dúvidas de que eles todos fariam questão de desfilar carregados nos braços da massa.
Para encerrar, o leitor Flávio Ferreira fez a seguinte manifestação – que comento fora das aspas – no espaço destinado à opinião dos torcedores no noticiário do site e que reclama atenção especial.
“Me deixa triste a atitute dos Coxanautas. Inicialmente vocês lavaram as mãos na eleição que reelegeu o GG (NR: Giovani Gionédis, presidente do Coritiba) e agora estão chutando o balde com este lance de protesto, passando toda a responsabilidade aos jogadores pelo fracasso do Coritiba até este momento”.
Flávio, os COXAnautas não fazem e não tomam partido na política do Clube. Os que colaboram com o site (colunistas, basicamente) têm a liberdade de apoiar quem bem entenderem, mas em nome pessoal. Isso não significa que os COXAnautas tenham se omitido ou lavado as mãos. Nossa missão é informar os torcedores e, entre eles, os torcedores que são sócios e podem votar. Isso nos garante legitimidade e isenção para, como você definiu, “chutar o balde”. Nosso compromisso é com o Coritiba, não com pessoas.
“Lamentável que vocês basicamente sejam o porta-voz da Império, esta mesma organizada que apoiou publicamente a reeleição de GG, e agora estejam brigando com os jogadores, como se eles fossem os responsáveis por tudo isso”.
Flávio, o site COXAnautas não é porta-voz nem da Império, nem de ninguém. A gente tenta ser, sim, porta-voz da torcida no seu conjunto. Tentamos exprimir seus desejos, críticas e expectativas sem nos atrelarmos a grupos, correntes ou facções de qualquer gênero. A instituição Coritiba é mais importante e é maior que as pessoas. Também não acho que estejamos brigando com nenhum jogador em especial: não queremos é jogador ruim e/ou sem vontade de jogar no Coxa, e não acho que estejamos errados. E acho que responsabilizar os jogadores é o que há de mais óbvio: não são eles que jogam ou deveriam jogar?
“Este é o momento de estarmos unidos, e esta unidade inclui os atletas também e não é porrada que vai nos levar à primeira divisão”.
Flávio, em momento algum você leu nos COXAnautas menção ou insinuação de que a violência seja solução para qualquer coisa. Mas achamos perfeitamente natural que, como fazem e fizeram tantos torcedores de tantos clubes pelo mundo, os do Coritiba manifestassem contrariedade e cobrassem atitude e reação dos jogadores. Lembre que antes do incidente houve sete rodadas em que a união e a paciência prevaleceram – ainda assim, o resultado foi uma oitava rodada sem vitória...
“Concordo que os jogadores que não estejam jogando com raça devem deixar o clube e esta seria uma decisão simples de se tomar se tivéssemos liderança fora de campo. Então, por que não ir atrás dos verdadeiros responsáveis pela decadência do Coritiba? É o GG quem tem que decidir quem vai e quem fica, uma vez que foi ele que contratou a comissão técnica e os atletas, e não há necessidade desta violência”.
Os COXAnautas concordam e têm apontado os tais que não jogam com raça. Mas mandá-los embora é decisão que não compete a nós, embora estejamos cobrando providências há muito tempo.
“Este site e a Império têm ajudado o Coritiba de maneira incrível todos estes anos. Por que agora que precisamos de vocês mais que nunca estão chutando o balde com estas atitudes anti-Coxa?”
Não creio que o posicionamento do site COXAnautas seja “anti-Coxa”. Pelo contrário, estamos manifestando a mesma contrariedade, decepção e estado de espírito dos torcedores que não se conformam em ver o Coritiba se ajudando tão pouco na tarefa de retornar à divisão principal em 2007. O site COXAnautas e toda a torcida acham que o Coritiba é grande demais para estar na Série B. Caiu por incompetência, erros e incapacidade dos dirigentes e do elenco. Não subir pelos mesmos motivos é de causar vergonha, não?
“Sim, temos que parar e pensar. Nós, torcedores, também cometemos erros. Um deles foi deixar o GG se reeleger, mas temos que resolver nossas diferenças civilizadamente”.
Flávio, nem eu nem qualquer torcedor que eu conheça deixou GG se reeleger pelo simples fato de não sermos eleitores. Essa sua generalização é despropositada.
“E para todos vocês, torcedores de organizadas, sites e povão em geral, que realmente queiram ver o Coritiba com um verdadeiro time de futebol e estão céticos sobre o assunto, que se apresentem na secretaria do Coritiba e se tornem Sócios-Contribuintes hoje (recado para a secretaria: temos que expandir o Sócio-Contribuinte para todos os setores do estádio, não somente para as cadeiras). É agora e hoje que o Coritiba precisa de vocês”.
Flávio, você está chegando algumas semanas atrasado. Há muitos dias o site COXAnautas está em campanha para angariar novos sócios – inclusive informando quanto custa, quais os benefícios e a quem procurar para se associar. Quanto a expandir o acesso do Sócio-Contribuinte a outros setores do estádio, não adianta mandar recado para a secretaria. Isso requer alteração nos Estatutos do Clube.
“Comecem a fazer algo de concreto e não esperem que o GG venha a fazer isto por nós”.
Flávio, os COXAnautas surgiram há dez anos como uma lista de discussão de torcedores do Coritiba. À custa do interesse, esforço e dedicação de dezenas de outros abnegados (nenhum deles remunerado), a lista de discussão se tornou um site que, segundo os próprios torcedores, é a única fonte confiável de informação e análise sobre o Coritiba e que tem pautado, não poucas vezes, veículos da chamada “grande imprensa” do Paraná e do Brasil. Começamos a fazer os COXAnautas em 1996. E você, caro Flávio, o que teria feito pelo Coritiba de lá para cá?
Malhadas Jr
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Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)