
BOB COXA
Foto de arquivo: em outro momento, o ex-baterista dos Ramones e o vocalista da banda banda Tequila Baby foram presenteados com camisas do Coritiba
André Folloni é advogado, professor de direito e Coxa-Branca de coração.
Um pouco da história do Teenage Head, de Marky Ramone
No ano passado saiu um daqueles discos classe A + que são imperdíveis para quem gosta de rock de verdade: a clássica banda canadense Teenage Head tocando 11 de seus clássicos, mais o cover de First Time do The Boys, com o excelente Marky Ramone na bateria. O nome do disco/banda é esse: “Teenage Head with Marky Ramone”. Não tem mais nada escrito na capa fora isso.
Quase tudo sobre o disco está explicado pelo guitarrista Gord Lewis, fundador e uma espécie de “líder” do Teenage Head, no extenso e interessantíssimo encarte que acompanha o disco, que também está cheio de fotos bacanas, das sessões de ensaios e das gravações.
Lewis conta que o Teenage Head teve contato pessoal com o Marky Ramone na turnê de palestras que ele fez, uns anos atrás, com alguns convidados. Quando esteve em Hamilton e em Toronto, Marky convidou o Teenage Head, e depois de sua fala eles se juntavam no palco para tocar algumas músicas do Ramones.
O Coxa-Branca Renato Puppi, fã de Teenage Head e quem me gravou a primeira fita deles, assistiu a um desses shows e me falou com entusiasmo sobre ele. Mas esse disco é diferente dos shows: se ao vivo tocavam Ramones, no estúdio só gravaram músicas do Teenage Head.
Foto de arquivo: em outro momento, o ex-baterista dos Ramones e o vocalista da banda banda Tequila Baby foram presenteados com camisas do Coritiba
O Teenage Head é uma banda clássica do Canadá, mais precisamente da cidade de Hamilton, em Ontário. Foi formada logo após o início do punk em New York e claramente influenciada pelas bandas norte-americanas. O primeiro single deles foi lançado em 1978 – Picture My Face, com Tearing me Apart do lado B, ambas regravadas agora. A capa desse novo disco, aliás, reproduz a capa do single, misturada a uma fotografia da banda na fase atual.
No ano seguinte sai o primeiro disco, Teenage Head, o que o Renato me gravou aquela vez. É um disco perfeito do começo ao fim. Depois lançaram o ótimo Frantic City em 1980. Em 1982 veio o excelente Some Kinda Fun, e o ep Tornado saiu em 1983. Em 1985/86 lançam Trouble in the Jungle, depois Electric Guitar em 1988, com outro vocalista. Ouvi falar ainda de um disco que nunca escutei: Can’t Stop Shaking, de meados da década de 80. Fora esses, não tenho mais notícia de discos oficiais lançados pelo Teenage Head até este de 2008, com o Marky Ramone. Há ainda dois bons registros da banda ao vivo. Um deles é o Endless Party, e o outro se chama simplesmente Live ’77.
A banda ficou razoavelmente conhecida na cena punk rock de Curitiba, na virada dos anos 80 para os 90. Tudo porque o Coxa-Branca Sérgio Piupa – recentemente falecido em função de complicações decorrentes de um acidente de automóvel – trouxe de viagem uma fita cassete do Screeching Weasel, e gravou para alguns amigos. Logo esse som se espalhou pela cidade, e daí em diante Screeching Weasel foi muito ouvido em Curitiba. Pois bem: no fantástico disco Wiggle, essa banda de Chicago gravou um cover de Ain’t Got No Sense, do Teenage Head. Acho que foi o Renato que chamou a atenção de todo mundo, mostrando que na verdade essa música era do Teenage Head, e que todos deveriam buscar o original.
Voltemos ao disco. Diz Gord Lewis, que é guitarrista, que o Marky Ramone é o único instrumentista não-guitarrista que chama sua atenção quando ele vai a shows. E isso surpreende e mostra a presença de Marky, quando lembramos que ele dividiu durante anos o palco com o incomparável Johnny Ramone, um dos guitarristas mais competentes e agressivos que eu já vi tocar. Gord Lewis destaca, no estilo de Marky, algo que eu sempre notei e quis copiar: Marky não toca contra a música, ele toca com a música. Conhecemos bateristas que parecem brigar com a música; Marky a acompanha e a torna melhor.
Foto de arquivo: em outro momento, o ex-baterista dos Ramones e o vocalista da banda banda Tequila Baby foram presenteados com camisas do Coritiba
Feita a amizade, surgiu o desejo de convidar Marky Ramone para gravar um disco com o Teenage Head. Mas como os canadenses não tinham músicas novas, eles resolveram – idéia do baixista Steve Marshall – gravar seus sucessos antigos. A combinação então seria a seguinte: músicas do Teenage Head, tocadas pelo Teenage Head com Marky Ramone tocando bateria. Claro que o resultado só poderia ser fantástico.
Do Marky veio a idéia de chamar o produtor Daniel Rey – dentre outros, produziu Halfway to Sanity e Adios Amigos, os mais recentes do Misfits, a banda canadense Doughboys, de Montreal, além do excepcional disco solo do Dee Dee Ramone, Ain’t It Fun/Zonked!, no qual também toca guitarra, e do excelente disco solo do Joey Ramone, Don’t Worry About Me, do qual também participa como músico em algumas faixas. E do Daniel Rey veio a idéia de gravar todas as músicas no tempo original. Rey então tiraria o tempo original das músicas e controlaria as gravações para que elas acompanhassem aqueles andamentos.
Quem ouve o disco logo percebe que Marky Ramone toca todas as músicas de uma maneira muito fiel aos originais. Isso fica bem presente na segunda música, Let’s Shake, na qual Marky sai de sua característica para, seguindo a gravação original, tocar a música com o chimbal simples e fechado, com quatro notas por tempo, diferente das oito notas em velocidade altíssima que o tornaram famoso. Aliás, quatro notas no chimbal fechado como Tommy Ramone fez em Pinhead no disco Leave Home, por exemplo.
Fiel, Marky já tocava Pinhead ao vivo assim, com quatro notas no chimbal. Era lógico que manteria a fidelidade aos originais também no disco com o Teenage Head, coisa que sempre fez e que facilmente se nota no disco Acid Eaters. Mas também é lógico que Marky adiciona seu estilo próprio, esse que desenvolveu principalmente desde os últimos tempos do Ramones, e que se revela ainda mais presente em seus projetos com os Intruders, com Dee Dee e com Joey Ramone. A mistura é interessante, porque as músicas do Teenage Head são diferentes das dos Ramones: são mais elaboradas, com algumas guitarras mais para o rock’n’roll. Porém, dada a fidelidade do Marky, a sensação que dá é de estar ouvindo Teenage Head, não Ramones.
De um modo geral, os tempos do disco são ligeiramente – quase nada – mais lentos que as músicas mais rápidas que os Ramones faziam em estúdio, como Got a Lot to Say e The Crusher do disco Adios Amigos. A velocidade característica do Marky, porém, pode ser ouvida na música You’re The One I’m Crazy For.
Foto de arquivo: em outro momento, o ex-baterista dos Ramones e o vocalista da banda banda Tequila Baby foram presenteados com camisas do Coritiba
Em First Time há algo diferente da versão original do Teenage Head: onde deveria haver o solo, há uma parede de guitarra estilo Johnny Ramone – “wall of sound” é como Marky uma vez chamou esse estilo do Johnny tocar ao vivo. Gord Lewis explica que tocar essa guitarra foi a sua forma de prestar um tributo ao Johnny. E foi a única vez em que ele pediu algo ao Marky: para que, na parte do solo/wall of soud, ele fizesse aquele toque simples no prato de condução, quatro notas por tempo, a exemplo parte da guitarra de Havana Affair – que, aliás, foi gravada originalmente pelo Tommy Ramone, mas era tocada pelo Marky, ao vivo, com fidelidade ao original. Esse estilo está presente em outras músicas que Marky toca – lembro agora de Donna, gravada no Project 1950 do Misfits. Ficou muito boa a versão, lógico, mas não tão boa quanto a que eu, o Renato e o Jack tocávamos no QG da Manoel Ribas!
Foto de arquivo: em outro momento, o ex-baterista dos Ramones e o vocalista da banda banda Tequila Baby foram presenteados com camisas do Coritiba
No disco não diz, mas há fontes que dizem que as gravações são de 2003, embora o disco tenha sido lançado em meados de 2008.
Paro por aqui porque é legal ler as liner notes do Gord Lewis no encarte. Esse disco não é pra baixar, é pra comprar e ter o original. Esse pessoal merece, e quem gosta deles merece manusear o disco. Pra mim, mp3 é um pouco pior que fita cassete gravada. Se puder, prefiro ter o original. E, se puder, em vinil. Aliás, o Gord Lewis também disse que esse disco foi concebido como se concebiam discos antigos, antes do surgimento do CD: 6 músicas do lado A, 6 do lado B, com uma preocupação na hora de decidir qual seria a última do lado A e a qual seria a primeira do lado B, que tinham que ser músicas adequadas para esses momentos importantes da audição do disco. Hoje, para quem compra cd ou baixa tudo da internet, isso se perdeu.
Digo mais, apenas, que no final do encarte, há uma lição interessante. Gord Lewis conta que foi sempre um sonho pra ele trabalhar com Marky e com Daniel Rey. E termina, ele que já deve ter passado bastante dos 50: “You’re never too old to dream”.
Nota: logo depois do lançamento dessa pérola do rock, o vocalista Frankie Venom faleceu de câncer na garganta – sua morte foi anunciada por Gord Lewis em 15 de outubro de 2008. Meio arredio durante as gravações, Frankie provocou uma certa apreensão em Lewis, logo dispersada por Daniel Rey, que disse: não se preocupe; se gravei com Johnny Thunders e com Dee Dee Ramone, gravo com qualquer um.
Duda Calvin, vocalista da Tequila Baby, Cesar Retzlaff, um fiel torcedor do Coritiba, Marky Ramone
As músicas do disco são as seguintes: Top Down, You’re Tearing Me Apart, Picture My Face, Lucy Potato, Ain’t Got No Sense, Little Boxes, (do primeiro disco), Let’s Shake (do Frantic City), Some Kinda Fun, Teenage Beer Drinkin’ Party (do Some Kinda Fun), You’re The One I’m Crazy For e Full-Time Fool (do Electric Guitar), e First Time (cover do The Boys).
Valeu, moçada. Voltarei em breve com outras dicas culturais pra vocês. Se você tem uma banda, um grupo teatral, é cineasta, cantor, cantora, faz qualquer tipo de expressão artística ou cultural e quer divulgar aqui no COXAnautas, manda o material pra mim: luiz@coritiba.com.
Todos os e-mails serão lidos com toda a atenção do mundo.
Bob Coxa no Orkut
Clique aqui para visitar o Perfil
Clique aqui para fazer parte da Comunidade
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)