
BRASIL
Deu a louca no futebol?
Organização fora de campo e evolução técnica estão fazendo os pequenos tomarem lugar dos grandes. Once Caldas que o diga
MÁRCIO MARÁ – JORNAL DO BRASIL
Há exatamente uma semana, o Figueirense assumia a liderança do Campeonato Brasileiro ao derrotar o Flamengo por 3 a 0. Tirou a posição, que já foi também do Criciúma, do São Caetano. Quarta-feira, o Santo André derrotou o Flamengo por 2 a 0, provocando outro Maracanazzo na história do estádio. No dia seguinte, a zebra foi sul-americana. O clube mais popular da Argentina, o BocaJuniors, perdeu a Libertadores nos pênaltis para o colombiano Once Caldas. Fora que a Eurocopa terá uma decisão amanhã, entre Portugal e Grécia, jamais imaginada. A nova ordem imperando no futebol rasga camisas de tradição e contempla clubes pequenos e seleções sem hábito de vencer - mas com organização dentro e fora de campo.
Na Copa de 2002, seleções como Turquia e Coréia do Sul ficaram entre as quatro melhores. Há pouco mais de um mês, o Porto conquistou a Liga dos Campeões desbancando os clubes mais ricos do mundo - Manchester United, Real Madrid, Milan e Juventus. Dois dos maiores técnicos do mundo, os brasileiros Luiz Felipe Scolari, da Seleção Portuguesa, e Carlos Alberto Parreira, da Brasileira, inspirados principalmente pelo feito do Santo André no Maracanã, chegaram à mesma conclusão. Para eles, nome e camisa não ganham mais jogo sozinhos - o futebol está evoluindo no mundo todo no ritmo da globalização. Para Felipão, ganha quem corre e se dedica mais. Parreira ainda cutuca as estruturas dos clubes.
- Sempre que pagam os profissionais em dia, em um clube organizado e com planejamento, o time tem sucesso - afirmou o tetra mundial em 1994.
Há quem veja as diferenças entre administrar um pequeno e um grande clube como determinantes. José Antônio Barros Alves, coordenador de Administração Esportiva da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e professor de MBA, vê falhas dos dirigentes, mas considera a pressão atuando decisivamente.
- Futebol é movido por paixão, e um grande clube é obrigado a vencer sempre. Quando é derrotado, acaba gastando o que não pode. Veja agora o caso do Flamengo. Perdeu a final da Copa do Brasil e por pressão vai ser obrigado a reformular o elenco, que quando ganhou o Campeonato Carioca era considerado bom. Os clubes pequenos não vivem esse problema, podem administrar com tranqüilidade - afirmou José Antônio Barros.
Autor do livro A grande jogada - Teoria e prática do marketing esportivo, de 1998, o professor Luiz Fernando Pozzi acha que as constantes transferências dos craques para o exterior determinam o enfraquecimento dos grandes clubes e o conseqüente equilíbrio. Por isso é a favor da medida do presidente da CBF, Ricardo Teixeira, limitando as negociações a partir do ano que vem para julho e dezembro.
- É a proteção do mercado, que muitos países já fazem. Considero válida. Mas os clubes precisam trabalhar melhor a marca, fazê-la viável. A Ferrari na mão do Rubinho é uma, na do Schumacher é outra - comparou Pozzi.
Por maiores que sejam os méritos dos emergentes campeões, no Brasil o fenômeno pode gerar conseqüências de efeito dominó. Clubes como Flamengo e Corinthians, os mais populares do país, detêm juntos quase um terço dos torcedores brasileiros - o Flamengo, segundo as últimas pesquisas, tem 35 milhões de torcedores e o Corinthians, 22 milhões. No momento, os dois brigam para não cair para a Segunda Divisão, invertendo os valores e reduzindo perspectivas de bom público na competição.
Segundo o matemático Tristão Garcia, o fenômeno da inversão de forças vem ganhando corpo desde que se optou pela fórmula do Campeonato Brasileiro de pontos corridos. Agarrado aos números da CBF da história da competição, Tristão vê com pessimismo a média atual da competição de 7.333 torcedores por partida - até a décima rodada.
- O Brasil não pode copiar modelo europeu. Este país, em termos de futebol, é um continente, não dá para comparar com Espanha, Itália. Por mais que os grandes clubes estejam com problemas para formar equipes e os pequenos mais organizados, como pode o Campeonato Brasileiro deixar fora da briga pelo título já em 11 rodadas torcidas como as do Flamengo, Corinthians, Botafogo? Temos 12 clubes potenciais, é necessário manter a maior parte na disputa - disse Tristão.
A média de público vem caindo proporcionalmente ao crescimento dos clubes pequenos. A maior, de 1987, ano em que o Flamengo ganhou o título (da chamada Copa União, pelo módulo verde), foi de 21.087, impensável hoje. A última boa foi em 1999, quando o Corinthians conquistou o título, com 16.612. De lá para cá, desceu para 11.500 (2000), 12 mil (2001), 12.900 (2002) e 10.342 (2003).
O matemático é adepto da volta dos playoffs com oito times na fase final ou que se imite o modelo argentino, com um campeonato nacional por semestre. José Antônio Barros considera também essencial o entendimento dos clubes com o governo federal.
- Virou prioridade nacional. A repercussão econômica de clubes como Flamengo e Corinthians caírem para uma Segunda Divisão é a pior. Se o governo bota dinheiro para salvar bancos, acho que valeria a pena salvar os clubes. São centenários, quantas empresas com mais de 100 anos temos aí hoje em dia?
José Antônio sugere ao Ministério dos Esportes conseguir liberação de linhas de crédito para construção de CTs e estádios. O modelo considerado ideal é do San Siro, dividido pelos rivais Milan e Inter.
- Quando um joga, muda a cor do estádio, a loja com os produtos do clube, tudo. No Brasil, os clubes precisam aumentar o faturamento. Além do despreparo e da pressão, as diretorias dos clubes foram prejudicadas pelos impostos e a Lei Pelé, que lhes tirou a maior receita, o passe dos jogadores. Na Europa, as multas rescisórias são altas.
O coordenador da FGV, que atua em parceria com a CBF em 28 projetos para o Plano de Modernização do Futebol Brasileiro, mostra o choque de visão.
- O Barcelona vende em sua loja 14 modelos de camisas, com preços diferentes. Aqui, o Flamengo aluga o estádio do Volta Redonda sem saber que naquela área a maior parte dos torcedores torce pelo Vasco ou pelo Fluminense.
Legenda da foto: Roberto Brum comemorando seu gol na goleada histórica do Coritiba por 5x0 no Flamengo em 2003.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)