FUTEBOL ARGENTINO25/01/07
O clássico de Rosário
O clássico
O clássico é a partida que nos causa loucura, é uma partida pela qual esperamos todos os dias do ano, o jogo que não se pode perder, o mais importante de todos.
Tudo começou em 1905, esta história de uns e outros, de amor e guerra, de pais e filhos, de “Canalhas” e “Leprosos”. Nesse ano foi disputado o primeiro clássico de Rosário, talvez o mais quente do país, talvez o mais quente do mundo.
É quase um ato reflexo perguntar quando sai a tabela do campeonato “quando enfrentaremos 'os peitos?'(1). Ainda que alguns queiram dissimular, ninguem pode negar que está ansioso para que chegue a hora do jogá-lo... jogá-lo e ganhá-lo.
Desde o fim de um clássico, não se vê a hora de jogar o próximo. Contam-se os meses, os dias, as horas e o confronto que parece tão longe, cada vez vai ficando mais próximo. Sofremos, sentimos e aos poucos nos tornamos loucos, como uma doença que vai aniquilando o cérebro. Os nervos te consomem e vão carcomendo devagarinho, de dentro para fora, expandindo-se como um vírus que entra no corpo, atentando contra a integridade física e mental. As noites são longas, intermináveis. Não se pode pregar um olho e as olheiras e o terrível esgotamento, são as provas claras disto.
Torcida do Central
A prévia. Duas ou três partidas antes os jornalistas perguntam aos jogadores: “já têm o clássico em mente?” e eles respondem: “Não, ainda falta muito, vamos jogo a jogo, só pensando na próxima partida”. Mentira, puras palavras que não enganam ninguém. Em suas cabeças circula a idéia de conseguir a glória e idolatria ganhando a grande partida, que geralmente “salva seu ano”.
Os meios de imprensa já começam a esquentar o clima. O ódio entre um e outro parece cada vez maior.
Terminou a partida anterior ao grande jogo e, agora sim, todos gritam a quatro cantos, que tem de se ganhar. “Agora sim, temos que pensar no Newell's” dirão os jogadores. “No domingo quebramos suas bundas e os colocaremos para correr” dirão os torcedores.
Todos os tipos de demonstrações de apoio à equipe são preparadas, independente de estarem entre os primeiros ou os últimos do campeonato. O clássico é um campeonato à parte dos demais jogos.
Os torcedores exploram seus folclores ao máximo, usando sua genialidade para superar o rival em criatividade, presença, cores e sobretudo o “calor”. O duelo das torcidas nas arquibancadas é um espetáculo à parte, é a batalha sem fim de músicas de um e outro apoiando suas equipes ou “agredindo” o rival no que mais lhe cause dor.
Torcida do Central
Alguns tomam como parâmetro a última partida de ambos para ver quem chega melhor. “Como foram 'os peitos'?” é a pergunta clássica. Outros olham a tabela de classificação para ver quem está na frente. Mas tudo isso não importa. O clássico é um jogo à parte, um campeonato à parte, uma história distinta, nada é igual. Poucas vezes se vêem grandes jogos, todos tratam de não perder, mais do que ganhar. A maioria das vezes, o medo da humilhação supera a fome da glória, e minhas teses se sustentam, já que é o clássico com mais empates do futebol argentino. São muito mais empates que vitórias de qualquer um dos dois times.
Minuto zero, apito inicial. Passam os minutos. A partida esquenta, entrada forte por aqui, entrada assassina por ali. Uns se agarram, outros empurram. Os insultos vão de um lado para outro como abelhas em uma colméia. O árbitro dá um cartão vermelho e tudo piora. O clima está esquentando.
As arquibancadas estão cheias e as pessoas apertadas (mas eufóricas) deixam sua chama viva até o último alento. O torcedor é o maior beneficiado ou prejudicado de todos. Ele que faz o impossível para seguir seu time aonde for, custe o que custar. Ele que junta moeda a moeda para pagar os exagerados preços dos ingressos. Ele que faz intermináveis filas desde a madrugada para conseguir seu acesso. Ele que, na derrota de sua equipe, chorará desconsolado sem parar, tendo que agüentar a provocação dos simpatizantes (porque não são torcedores) “peitos frescos”, e que não encontrará consolo algum, somente esperar a hora do próximo clássico; mas que se ganhar será a pessoa mais feliz do mundo, nada lhe importará e aproveitará até o fim, desfrutando cada milésimo de segundo, deliciando-se com esse gosto tão doce.
A partida termina, o sofrimento também. Rostos felizes por um lado esbanjando e re-esbanjando felicidade. Pelo outro lado, caras dominadas pela aguda tristeza e angústia. Mas como em todo ciclo, tudo tem um novo começo. Desde o fim de um clássico, não se vê a hora de jogar o próximo. Contam-se os meses, os dias, as horas
Juan Gesuiti, autor do texto, é torcedor do Rosário Central e reside em Buenos Aires. Juan é administrador do site Buenos Aires Canalla, parceiro do site COXAnautas.
Colaborou na tradução Rafael Bitterman, fiel torcedor do Verdão. Rafael, 25, é fisioterapeuta. Coxa-Branca apaixonado pelo Clube, pelo time, pela torcida e tudo que estiver ligado ao Coritiba. É proprietário de uma cadeira no Couto Pereira há 8 anos, 'fazendo o possível e impossível para não perder um jogo do meu time!!'.
(1)Nota do editor: “peito frescos” são como são chamados pelos torcedores do Central os torcedores do rubro-negro Newell's Old Boys, numa alusão aos pingüins, que deslizam de peito sobre o gelo.
Historicamente, o apelido se deve ao fato de os rubro-negros de Rosário serem torcedores tidos como frios e pouco fiéis. Cantam pouco durante os jogos e só vão a campo quando seu time está bem e em jogos contra grandes times.
Este texto foi escrito em 2.000 ou 2.001, Juan não se lembra ao certo. Mas a rivalidade permanece a mesma. Melhor, cresce a cada dia.