
BOB COXA
Colaborou o torcedor Coxa-Branca Luiz Carlos Betenheuser Júnior
A história dos quadrinhos modernos pode ser subdividida em AF e DF: Antes de Frank Miller e Depois de Frank Miller.
Até então, o mercado era para politicamente corretos, como Homem de Ferro, Super-Homem, Mulher Maravilha e Capitão América. Os certinhos de Hollywood e os bonzinhos da Casa Branca, DC.
Foi então que em 1986 o universo dos quadrinhos foi sacudido pelo Big Bang de 'Batman, o Cavaleiro das Trevas' do simplesmente genial Frank Miller. O mundo dos quadrinhos nunca mais seria o mesmo. 'O Cavaleiro' foi desenhado por Frank Miller, com cores por Lynn Varley e arte-finalizada por Klaus Janson.
Miller simplesmente rompeu conceitos e redefiniu padrões que se tornariam 'lei' nos quadrinhos, que deixaram de ser 'coisa para criança' para ser uma leitura de adultos.
O Batman de 'O Cavaleiro das Trevas' é um senhor de meia idade, que não se conforma com o mundo dominado pelas gangues de rua, pela violência e pelas drogas, além da opressão governamental, claro. O Robin não é 'o', é 'a', uma garota adolescente. Uma visão 'anárquica' para aquele padrão pasteurizado - quase ditatorial - dos modelos para super-heróis.
Na série, vilões como o Coringa, e o Super-Homem (seria o Homem de Aço um vilão?), são dissecados de uma forma mais realista, mais humana, com os nuances sutis de cada um de seus alter ego conduzindo as ações numa Gothan City bem mais gótica do que as imaginadas por Bob Kane, décadas antes. Nem sempre de forma tão correta.
Na visão de Miller, o personagem ganhou um novo formato, mais introspectivo, soturno e realista. Digamos, mais sombrio.
Ao ser lançada, a história foi um verdadeiro fenômeno mundial. Foi um assombro. Os leitores, estupefatos, nunca tinham visto nada igual.
Frank Miller é um artista além do seu tempo. Sua obra é inesquecível, inigualável, incomparável. É única, a Monalisa dos quadrinhos. Tanto que no início do século 21, Miller inventou de fazer o 'Cavaleiro das Trevas 2'. Não deu certo.
Na sua trajetória d'O Cavaleiro das Trevas, Frank brinca com mitos. A narrativa parece ser contada em ritmo de TV. Não sei não se não influenciou o 'Operation Mindcrime', disco da banda Queensrÿche, de 1989, com o relação do estilo televisivo dos âncoras de TV norte-americanos. Aliás, o ritmo da narrativa é um verdadeiro mix de estilos culturais: da música à televisão, este Batman é marcado por incríveis peculiaridades que tornaram a obra realmente algo diferente, muito mais complexo. Algo para o leitor passar o tempo tentando identificar as 'sacadas' do autor.
Sobre este estilo totalmente diferente de apresentar uma história em quadrinhos, Frank Miller falou em depoimento a Mark Salisbury, no livro Artists on Comic Art:
"Quando eu estava estruturando Cavaleiro das Trevas a primeira coisa que eu fiz foi estabelecer o esquema de 16 quadros em que a série inteira iria ser baseada. Isto era eu tentando tentando tratar os painéis como notas musicais em um pulso, para controlar o passo.
Era um livro muito denso, eu estava empacotando coisas de maneira extremamente forte nesse ponto, mas você notará que a tensão desses pequenos painéis em staccato (NR: da Wikipédia, 'um tipo de fraseio ou de articulação no qual as notas e os motivos das frase musicais devem ser executadas com suspensões entre elas, ficando as notas com curta duração') é quebrada de vez em quando por uma meia página ou por uma imagem de página inteira que é destinada não a retirar você da história mas fazer com que você dê uma pausa e se dê conta de onde a história está, qual é o objetivo.
Meu favorito do grupo é no terceiro número, quando você vira a página e se depara com uma imagem de Batman e Robin sobre a cidade, e você está olhando para cima para eles. Esta é provavelmente a cena mais heróica em que eles aparecem em toda a série".
A série é dividida em quatro episódios. Na parte 1, 'O Retorno do Morcego'; na 2, 'O Morcego Triunfa'; já na terceira parte, a 'Caça ao Morcego'. Na parte final, 'A Queda do Morcego'.
Brilhante, Miller não matou (ou matou?) o Coringa, nem mesmo o Duas Caras.
Fica a dúvida: o Batman de Frank Miller teria, mesmo que inconscientemente, certa similaridade psicológica com o Duas Caras, o vilão cujo ego e alter-ego vivem em conflito?
Batman não chega a tanto, claro. Mas fica a impressão que ele, apesar de não mais viver assolado por lembranças do passado que o atormentavam - a morte dos pais - tinha um presente com alguns fantasmas: a 'aposentadoria' dos amigos super-heróis, forçados pelo governo a 'ficar na geladeira' para manter a ordem? E a morte do primeiro Robin? A ausência (forçada) de Arqueiro Verde, um velho amigo que perdera um braço (cruel da parte de Miller, não?), o que o obrigava a depender dos outros que lhe eram próximos? O quanto isto implicaria nas ações do Homem Morcego? E o quanto Frank Miller se preocupou em deixar a interpretação disto tão livre ao leitor?
Apesar de Miller negar que na fase 2 do Cavaleiro (em 2001), a morte dos pais ainda assombrassem Batman, nos idos de 1985 a história ainda deixava esta hipótese no ar sombrio de Gothan...
Em 'O Cavaleiro das Trevas', Batman também não matou o Super-Homem. Nem precisava. Não eram criações dele, creio que ele não quis ser maior do que sua criatura. Miller simplesmente fez Batman literalmente colocá-los no chão, onde era o lugar deles numa luta, corpo a corpo com o Morcego.
O Super-Homem ganhou um cuidado todo especial quando enfrentou Batman. Teve que deixar seu primeiro lugar no pódio, deixou de ser tão super e inabalável para ser um ser dependente do planeta Terra.
Sim, foi justamente aquela que ele tanto protegia quem o salvou da morte. Ou será que ele, o Super-Homem, protegia o governo dos EUA?...
Paradoxal, não? Não para Miller. Para ele, os super-heróis (assim como os vilões) tinham muito de humanos. Mais humanos do que poderíamos esperar.
A história é tão referencial para o mercado, que no Brasil a Editora Abril produziu a peça, com direito a edição de luxo, com uma capa mais caprichada (aliás, as capas das edições brasileiras eram redesenhadas para ficar mais 'bonitinhas', inclusive a do próprio Batman, que deixou de ser tão sombria quanto as da edição original)e papel de boa gramatura, numa época onde os quadrinhos não tinham tal direito na sua produção.
As vendas no Brasil foram surpreendentes. Os adultos e os jovens descobriram um cenário de vida inteligente (ou, quem sabe, diferente do habitual) no universo dos quadrinhos. Estava criado um fato novo. E um nicho de mercado foi descoberto.
Lembro bem, a edição era mensal. O maior problema foi justamente esperar um mês inteiro para saber o que aconteceria no final...
Ainda querem saber se Batman morreu no final?
Valeu, moçada. Voltarei em breve com outras dicas culturais pra vocês. Se você tem uma banda, um grupo teatral, é cineasta, cantor, cantora, faz qualquer tipo de expressão artística ou cultural e quer divulgar aqui no COXAnautas, manda o material pra mim: bobcoxa@coxanautas.com.br.
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