
ARBITRAGEM
O árbitro Evandro Roman pode entrar para a história do futebol paranaense dentro de algumas horas. O apitador promete denunciar os árbitros que participam de um suposto esquema de arbitragens tendenciosas.
Em entrevista nesta manhã de terça-feira no programa Mesa Redonda (CNT), Roman afirmou que há dez anos (seria uma data cabalística?) o futebol paranaense está corrompido por más arbitragens. E promete levar provas, novas testemunhas e citar nominalmente quais são os árbitros paranaenses que participam de um suposto esquema de corrupção no futebol paranaense. Tudo isto desde que a imprensa esteja presente.
Se Evandro Roman confirmar perante a imprensa o que diz saber, certamente o futebol paranaense mudará de rumos nas próximas horas.
A grande dúvida que fica é: será que este suposto esquema de corrupção nas arbitragens atinge apenas a segunda divisão do nosso futebol? Ou será que a primeira divisão também sofre deste mal?
Nos últimos dias os principais veículos de comunicação do estado têm destacado o que pode se tornar em breve o maior escândalo do futebol brasileiro. Entre estes veículos, os respeitados jornais Tribuna do Paraná e Gazeta do Povo (do qual retiramos as reportagens abaixo) e os programas esportivos das TVs CNT, TVE, SBT e RPC (programações regionais), além das diversas rádios e sites especializados que cobrem o futebol no Paraná.
Confira as reportagens da Gazeta do Povo publicadas nos últimos dias sobre o assunto:
SÉRIE PRATA - Dirigente do Operário revela em programa de tevê suposto esquema de arbitragem para beneficiar o clube
O "mensalão" do Fantasma
Rodolfo Bührer/Gazeta do Povo
O técnico Ricardo Pinto disse desconhecer o suposto esquema: "R$ 2 mil é dinheiro para caramba diante da nossa folha de R$ 35 mil".
Um suposto esquema de arbitragem coloca em xeque a campanha do Operário na Série Prata. O time de melhor campanha da Segundona paranaense é suspeito de pagar propina aos juízes. O "mensalão" do Fantasma vem à tona no momento de ressurreição de um dos clubes mais tradicionais do interior do estado.
A polêmica veio à tona na noite de domingo, durante o programa Histórias do Esporte, veiculado pelo canal ESPN Brasil. E saiu de dentro do próprio Estádio Germano Krüeger.
No especial "Paraná de Prata e de Lama", o presidente do Conselho Deliberativo do Fantasma, Sílvio Gubert, revela a necessidade de uma ajudinha aos árbitros além da taxa fixa da Federação Paranaense de Futebol (FPF) – em torno de R$ 1.200 para o trio titular, mais o árbitro reserva.
O valor inicial do "mensalão" da Prata seria de aproximadamente R$ 2 mil por jogo. "Um jogo desses, se não der dois paus, ele faz o jogo do outro (time). Isso na primeira fase. Na segunda fase é mais", declarou Guber à ESPN.
No esquema do Operário, o Marcos Valério (publicitário apontado como operador do esquema de propinas no governo federal) da Série Prata é chamado de Bruxo. Segundo a matéria, uma pessoa ligada à FPF telefonaria informando quem seriam os árbitros de cada jogo e pegaria o dinheiro no estádio antes de cada partida.
"Foi uma surpresa para mim. Fui assistir ao programa na casa da minha mãe achando que seria legal, contando o trabalho bonito que estamos fazendo e vi aquilo. Uma decepção", disse o presidente do clube, Sílvio Komoski, à Gazeta do Povo, por telefone.
Diante do impacto da denúncia, ele convocou uma coletiva para Silvio Gubert esclarecer suas declarações. "O que falei foram coisas da história do futebol paranaense. Não as que acontecem hoje. Foi tudo editado. Não vou pedir demissão do clube. Peço desculpas apenas por ter sido ingênuo e acreditado em pessoas sem credibilidade", defendeu-se o dirigente, que disse ter conversado com um advogado para analisar o caso.
O repórter Ronaldo Kotscho, da ESPN Brasil, participou da matéria e da edição e rebateu as explicações. "Temos a fita bruta. Está claro que ele não falava do passado, ocorre agora neste campeonato. Inclusive no dia do jogo ele ia separar um agrado para a arbitragem", disse à Gazeta.
O jornalista pondera que na partida em questão, Operário e São José dos Pinhais, o juiz Antônio Oliveira Salazar Moreno em nada influenciou no 0 a 0. Os donos da casa tiveram, inclusive, um gol anulado corretamente.
O técnico do clube, Ricardo Pinto, disse não acreditar no esquema. "Se estão pagando, não estão fazendo o trabalho direito porque em vários jogos reclamamos da arbitragem. Estamos liderando o campeonato e sempre achei que o mérito era só nosso. R$ 2 mil é dinheiro para caramba diante da nossa folha salarial de R$ 35 mil", desabafou.
Ana Luzia Mikos
MENSALÃO DO APITO - Denúncia de suborno pode causar a eliminação do Operário, de árbitros e dirigentes
Temporada de caça aos "bruxos"
A Federação Paranaense de Futebol (FPF) saiu à caça do "Bruxo" – alcunha dada ao operador do suposto esquema de corrupção na arbitragem. Uma busca que pode até mesmo acarretar na eliminação do Operário, líder do Grupo A da Série Prata.
Dizendo-se indignada com o possível mensalão de R$ 2 mil dado aos juízes para manipular resultados, a entidade solicitou ontem ao Tribunal de Justiça Desportiva (TJD-PR) a abertura de inquérito contra a equipe de Ponta Grossa e o seu diretor e tesoureiro Sílvio Gubert, responsável pela propagação do suborno.
Em reportagem da ESPN Brasil, veiculada no domingo à noite, o cartola ponta-grossense revelou a existência de caixa 2 no apito e também deu a entender que repassava dinheiro do clube ao (ainda) anônimo intermediário. O esquema estaria garantindo ao representante dos Campos Gerais sucesso em campo.
Caso seja confirmada a culpa, o Fantasma da Vila Maria – assim como os atravessadores e receptores – seria enquadrado no artigo 241 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva ("Dar ou prometer qualquer vantagem a árbitro ou auxiliar de arbitragem para que influa no resultado da partida, prova ou equivalente.").
A pena nesta situação surge como uma das mais pesadas: o banimento dos envolvidos. "Serão expulsos do quadro da Federação. Não podem mais participar do futebol", explica Bortolo Escorssim, presidente do TJD-PR. "A situação do dirigente parece clara, pois não há dúvida do envolvimento. Devemos averiguar se o clube sabia desse ato ilícito. Só assim será punido", completa.
Diretamente ligada ao imbróglio, a FPF de Onaireves Moura partiu rapidamente à ofensiva. Além de acionar o tribunal, a entidade garante estar à procura dos possíveis responsáveis. Quer rapidamente sair limpa dessa situação.
"Pedi a todas as associações da Série Prata para que me passassem informações sobre esse tal de Bruxo, figura da qual jamais ninguém ouviu falar. Queremos saber a verdade. Quem garante tal existência, terá de se explicar. Nem que para isso cheguemos ao extremo de quebrar sigilo telefônico ou coisa do gênero", avisa Moura.
Também atingidos pela denúncia, os árbitros são solidários na rápida apuração do delito. O tom de crítica (desprovido de corporativismo) ganha força com o juiz Henrique França Triches, comandante da Associação Paranaense de Árbitros, atualmente com 280 filiados.
"Queremos saber não só quem articulava isso, mas também aqueles que entraram na rede. Se existe essa tramóia, alguém aceitou receber dinheiro sujo", comenta. "Não acredito que hoje algum idiota possa receber algo dessa natureza para beneficiar um time. Mas agora ele (Sílvio Gubert) terá de citar nomes judicialmente. Se for verdade o que este cidadão disse, estaremos diante de um bando de sem-vergonha."
Rodrigo Fernandes
MENSALÃO DO APITO
Cartola se afasta do Fantasma
Ponta Grossa – O suposto esquema de mensalão na Série Prata já começou a ter efeitos no Operário. O presidente do Conselho Deliberativo e ex-presidente do clube, Sílvio Gubert, que revelou o esquema de arbitragem, não é mais o diretor administrativo e de finanças do Fantasma. Uma reunião da diretoria na noite de segunda-feira decidiu destituí-lo do cargo. No entanto, Gubert continuará como presidente do conselho, função que ocupa após ter sido eleito pelos conselheiros do clube no começo desse ano.
"Decidimos afastá-lo para evitar constrangimento com o elenco e a torcida", afirma o diretor de futebol do Operário, Marcelo Brustolin. Segundo ele, Gubert não terá mais uma participação ativa no clube e tampouco exercerá plenamente o cargo no conselho, de fiscalizar e aprovar as contas do Fantasma. "O engraçado é que várias vezes o Gubert tirou dinheiro do bolso para pagar dívidas do clube", revelou Brustolin.
De acordo com o presidente do clube, Sílvio Cosmoski, após o afastamento, Gubert ficou abatido e viajou para uma chácara em Teixeira Soares (a 43 km de Ponta Grossa), onde ficará para evitar represálias da torcida. "Na reunião, ele se prontificou a sair, pediu desculpa a todos os diretores e chorou", disse Cosmoski.
Sílvio Gubert foi presidente do Fantasma por três gestões, de 1996 a 2002. "Ele sempre trabalhou muito para o Operário. Ele é de confiança, só que foi ingênuo", afirma Cosmoski, que enviou um comunicado à Federação Paranaense de Futebol (FPF) pedindo desculpas pelas declarações do dirigente.
Eduardo Biagini
MENSALÃO DO APITO
Série Prata desmoralizada
O escândalo do mensalão no apito desmoralizou a arbitragem, os dirigentes e toda a disputa da Série Prata. Integrantes do torneio – que garante duas vagas na elite do futebol paranaense em 2006 – não escondem mais o temor pela corrupção nos gramados.
"Vou filmar todos os meus jogos. Iremos acompanhar o juiz desde a saída dele do vestiário ao campo até ele ir embora do estádio. Não quero ser roubado", anuncia Nélson Boreico, diretor do Prundentópolis, segundo colocado no Grupo A – atrás do Operário, supostamente beneficiado pelo esquema.
"Estou com o pé atrás. Já não sei se entrarei em campo para disputar uma partida ou perder antecipadamente. Como não tenho dinheiro, acho que entro perdendo", lamenta João Carlos Domingos, presidente do São José, antepenúltimo lugar na mesma chave.
Preocupações à parte, nenhum clube procurado pela reportagem da Gazeta do Povo diz conhecer o chamado "Bruxo" – operador do esquema para manipular resultados por R$ 2 mil. Mas alguns dizem já ter ouvido falar do assuntos antes dele vir à tona em Ponta Grossa.
"São coisas que só corriam nos bastidores. O que estão falando aí é o que o mundo do futebol sempre falou. Nunca ninguém me assediou ou pediu nada, até porque sabe que sempre fui contrário à administração Moura", diz Hélio Camargo, homem-forte da Portuguesa Londrinense.
A Lusinha foi o único clube profissional a votar contra o dirigente na eleição do ano passado. "Quem fez a denúncia (dirigente do Operário) esteve junto com ele na campanha. São parceiros dele", completa.
A opinião ganha força nas palavras de João Batista, presidente do Kashima – o lanterna da competição. "Tenho filhos, netos e não quero ficar com a consciência pesada por acusar alguém. Só que há forças ocultas, sim. O problema é que não tem como provar, pois foge pelos dedos", ataca.
"O campeonato ficou desmoralizado. O Operário, após a atitude daquele dirigente, jogou seus 90 anos de história no lixo. Ao invés de Fantasma, virou uma minhoquinha assustadora", segue o dono da equipe de Guaratuba, em tom indignado.
O Tribunal de Justiça Desportiva (TJD-PR) marcou para amanhã os depoimentos de Sílvio Gubert, o cartola que teria pago propina para favorecer o time ponta-grossense, e Sílvio Kosmoski, o presidente da equipe denunciada.
Rodrigo Fernandes
MENSALÃO DO APITO
Árbitro planeja atuação cala-boca em Londrina
O Operário, carinhosamente chamado de Fantasma, costumava assombrar os rivais no Campeonato Paranaense, especialmente nas décadas de 50 e 60, pelo futebol competitivo. Agora, quem fica de cabelo em pé por ter de encontrar o time de Ponta Grossa em campo é o árbitro.
Depois do escândalo protagonizado pelo presidente do Conselho Deliberativo do clube, Sílvio Gubert, que admitiu o pagamento de propina para evitar que o clube fosse prejudicado pelos homens de preto, todos os movimentos dos apitadores serão minuciosamente observados. Se o Marcos Tadeu Mafra "policiamento" da atitude dos juízes será reforçado para toda a rodada do fim de semana, o foco será ainda maior no duelo que envolve o pivô de toda a confusão.
Sorteado para comandar o confronto do Alvinegro com a Portuguesa Londrinense, domingo, às 15 horas, Nilo Neves de Souza Júnior procura encarar a situação com tranqüilidade. Mas sabe que qualquer erro em Londrina pode servir de argumento para complicar ainda mais a imagem já arranhada da categoria no estado.
"A responsabilidade de apitar um jogo como este fica maior depois da confusão. Até porque qualquer falha pode agravar a crise. Vamos ter de apitar cada lance o mais em cima possível para inibir controvérsias e, de repente, até calar a boca de quem vem acusando a gente", comentou.
Segundo ele, porém, o desenrolar da história durante a semana mostrou que não há envolvimento da arbitragem no esquema. "Ficou claro que, se existe isso, é coisa de pessoas de fora, não de árbitros", disse ele.
Gol anulado
Nilo anulou o gol de empate do Prudentópolis contra o mesmo Operário, dia 14 de agosto, aos 47 minutos do segundo tempo, mas diz que o episódio não o coloca ainda mais em evidência. "É coisa da paixão. Naquele momento, os dirigentes não gostaram, reclamaram, mas depois todo mundo viu pela tevê que não havia nada de ilícito na minha atitude", afirmou. "Estou muito tranqüilo. A gente se prepara para isso."
Sandro Gabardo
MENSALÃO DO APITO - Integrante do Tribunal diz que dirigentes do Operário mentiram ao negar compra de árbitro
Lágrimas não convencem TJD
Os dirigentes do Operário não conseguiram convencer o Tribunal de Justiça Desportiva (TJD-PR) de que são inocentes no suposto esquema de corrupção na arbitragem da Série Prata – o chamado "mensalão do apito".
Sílvio Cosmoski e Sílvio Gubert (os presidentes dos conselhos Gestor e Deliberativo do clube ponta-grossense, respectivamente) prestaram depoimento ontem sobre a possível existência de propina no futebol paranaense. Falaram pouco, estavam tensos e não agradaram ao auditor que comanda o inquérito.
"Em alguns momentos, eles faltaram com a verdade", percebeu Octacílio Sacerdote Filho, membro do TJD responsável pela investigação. "Sinceramente, não fiquei convicto do que eles falaram", completou.
As declarações de Gubert, personagem central desta história, acabou sendo o ponto alto da apuração. Após revelar em entrevista à ESPN Brasil a existência do "Bruxo" (o intermediário entre o clube e o juiz para o acerto de resultados), agora ele disse que tudo não passou de um mal-entendido. E chorou.
"No meu dia-a-dia, costumo tratar as pessoas por 'fera' e 'bruxo'. É o meu jeito de falar. Para mim, seria a mesma coisa que chamar alguém de 'senhor'. Isto sai continuamente da minha boca", disse ele, orientado de perto pelo advogado Domingos Moro – que curiosamente também presta serviço jurídico à Federação Paranaense de Futebol (FPF).
Com relação à entrega de R$ 2 mil à arbitragem (pagamento que leva à suspeita de suborno), Gubert usou os tributos obrigatórios como justificativa. "Pagamos 5% da renda para o INSS, mais os R$ 500 de taxa que são entregues à FPF, além do pagamento dos quatro árbitros, algo entre R$ 1.200 e R$ 1.600. É isto", contou.
Após anunciar ter tido uma "educação que não permite atos ilícitos" e destacar a origem humilde como argumento de defesa, o homem que detonou essa crise moral não suportou a tensão. "Estou sendo execrado por conta de tudo isso", desferiu, já com a voz embargada e lágrimas no rosto.
Em seguida, foi a vez de Cosmoski falar. As contas do Operário acabaram sendo o grande trunfo do responsável pelo time com apenas uma derrota na divisão de acesso (equipe-sensação, contabilizando 73,8% de aproveitamento em 14 jogos).
"Temos uma despesa mensal de R$ 60 mil e arrecadamos em torno de R$ 20 mil. Trabalhamos no vermelho e possuímos muitas dívidas. É um absurdo dizer que compramos alguém, pois não temos dinheiro suficiente para cumprir nossos deveres normais", destacou o cartola que comanda o clube dos Campos Gerais.
Uma coincidência foi verificado nos dois depoimentos: a dupla garante não ter tido contato com pessoas ligadas à FPF nos últimos tempos – livrando a cara da entidade. Justamente essa versão causou uma séria desconfiança no auditor. "Estamos em setembro e até agora nenhum contato. Estranho...", questionou Sacerdote Filho. "Eles foram muito bem orientados."
Além dos responsáveis pelo Operário, o presidente da Comissão de Arbitragem, Valdir de Souza, também se pronunciou. Ele abriu a sessão e fez questão de destacar que há transparência na escala de árbitros. Reforçou ainda o fato de jamais ter sido importunado pelas associações (leia-se veto ou interferências).
Rodrigo Fernandes
MENSALÃO DO APITO - Valdir de Souza pede afastamento para dar "liberdade às investigações" sobre corrupção
Crise derruba chefe da arbitragem
O mensalão do apito fez ontem a primeira vítima. O empresário Valdir de Souza pediu afastamento do comando da Comissão de Arbitragem – após um ano e três meses à frente do cargo.
A decisão do dirigente foi motivada pelas denúncias do ex-juiz José Francisco de Oliveira (publicadas na edição de ontem da Gazeta do Povo), que afirmou existir um esquema de corrupção e manipulação de jogos no futebol do estado.
Assim como o ex-chefe dos árbitros, toda sua equipe (com outros seis integrantes) está momentaneamente fora da cúpula diretiva da Federação Paranaense de Futebol (FPF). Onaireves Moura, presidente da entidade, já formou um grupo temporário para suprir as baixas.
Três diretores da FPF – Henrique Mehl Amâncio, Dilon Valdrigues e Paulo Cézar Silva – formam a partir de segunda-feira uma equipe provisória no comando da Comissão de Arbitragem. "A medida do Valdir de Souza foi tomada para dar maior transparência às investigações do Tribunal de Justiça Desportiva (TJD-PR). Mesmo sem provas de que há esse suborno, ele achou essa a medida mais correta. Não considero uma renúncia. É até louvável essa atitude. Acreditamos nele", disse Moura, em entrevista coletiva ontem à tarde, acompanhado de todo seu estafe (11 diretores).
FPF x Cidão
O homem-forte do futebol local também fez questão de desqualificar as declarações de José Francisco de Oliveira, conhecido como Cidão. "Já solicitei que esse senhor venha prestar o mais rápido possível depoimento sobre esse episódio. Vamos desenvolver uma pesquisa sobre a vida pregressa deste árbitro, que confessa participar do esquema. Por isso vamos levantar todas as escalas de jogos em que ele atuou", prometeu.
E segue: "Sabemos que essa pessoa considerou gol um lance em que a bola foi para fora no dia 20 de fevereiro, na partida entre Atlético e Império. Depois disso cancelamos o seu registro e o TJD-PR acabou lhe aplicando uma pena de 120 dias. Ele recorreu e a decisão de puni-lo foi revogada no tribunal superior (STJD). Pedimos então que ele passasse por novos testes físicos, mas preferiu não comparecer. Saiu nos ameaçando e disse que iria explodir a Federação."
A "geladeira", mesmo com a decisão jurídica de absolvê-lo, está na ponta da língua de Moura. "Como poderíamos colocar na ativa alguém que apitava partidas em clubes sociais e sofria com piadas? Os jogadores mandavam verificar se havia sido gol ou não. Não tinha a menor condição psicológica para trabalhar", atesta.
Paulo Cézar Silva, um dos nomeados para pôr ordem no apito, evitou entrar na polêmica. "Recebemos toda a liberdade para tocar esse novo desafio, com isenção. Agora o que passou é de responsabilidade do TJD. Só na próxima semana iremos assumir de fato a Comissão", avisou. Com isso, a rodada de hoje na Série Prata (principal foco dessas denúncias) foi mantida.
Rodrigo Fernandes
MENSALÃO DO APITO - Cidão revela roteiro de corrupção na arbitragem e afirma que mentor do esquema segue na FPF
O câncer continua, diz ex-árbitro
O suposto caso de estelionato na arbitragem – o chamado "mensalão do apito" – começou a ganhar forma. E mais: invadiu a ante-sala do presidente da Federação Paranaense de Futebol (FPF), Onaireves Moura.
Em nova entrevista à Gazeta do Povo, o ex-juiz José Francisco de Oliveira, o Cidão, diz que o "Bruxo" – alcunha do operador da possível fraude – está ligado à entidade esportiva. Também traz detalhes de como funcionava esse provável esquema de compra de árbitros.
"Mexeram no departamento de árbitros (o ex-presidente da Comissão de Arbitragem, Valdir de Souza, e sua equipe foram afastados).Tudo certo. Mas não tiraram o câncer", diz o delator dessa história – via telefone, de Londres, onde tem feito bicos no comando de jogos semiprofissionais.
De acordo com o depoimento de Cidão, o mentor do delito seria alguém próximo a Onaireves. Fala de um cartola que teria o poder de manipular a escala de árbitros dos jogos, passando por cima do sorteio exigido pelo Estatuto do Torcedor.
"Essa pessoa me ligava chamando para ir à sua casa... Eu chegava lá e o cara me dizia: 'Te coloquei em tal jogo. Só que depois da partida vão mandar uma encomenda para mim através de você. Tudo bem?' Era um envelope. Nunca abri, pois sou educado. Entregava-lhe fechado na segunda-feira. Ali ele dizia novamente que eu iria para tal jogo. Essa era a minha rotina em 70% dos casos que aparecia no apito", conta.
O ex-árbitro da FPF não apresenta provas. "Mas tenho todas guardadas embaixo do meu travesseiro", avisa, seguindo firme nas palavras. "Tudo que acontecia comigo, não estava sozinho. Sempre tinha alguém ao meu lado. São amigos que vão até no inferno em meu testemunho. Gente que não tem nada a ver com a arbitragem. Minhas armas são pesadas."
Mágoa e crise de consciência se misturam nesse discurso de revelações. Aos 45 anos, o responsável pela confirmação do gol atleticano contra o Império (20/2), quando a bola foi à linha de fundo, não entende por que foi afastado após o erro dos gramados. Esperava gratidão por se envolver em uma trama que nomeou de "maracutaia".
"Estou tirando um peso das costas. Agora posso dormir tranqüilo", explica. "Às vezes, ia rezando para o campo torcendo para não ter confusão. Fui muito usado. Os caras bagunçaram comigo."
Ele também faz questão de dizer que fazia tudo em busca de trabalho. Aceitava ser "bode expiatório" para atuar nas rodadas do futebol estadual. Assegura que jamais recebeu propina. "Só me prestava a isso porque queria receber a minha taxa", conta. "No meio de 200 árbitros, só eu fazia isso? Não ganhei dinheiro, ganhei escala."
Cidão garante ainda que recebeu orientação para ajustar resultado apenas em um caso específico. "No futebol amador, ouvi um papo de time da oposição à FPF. O sujeito dizia que o Moura estava pedindo algo. Já ia para o trabalho com a cabeça rachando", lembra.
Rodrigo Fernandes
MENSALÃO DO APITO
TJD aponta indiciados
O auditor do Tribunal de Justiça Desportiva (TJD), Otacílio Sacerdote Filho, confirmou que até agora quatro pessoas serão indiciadas pelo suposto esquema de manipulação de resultados no futebol paranaense. O ex-presidente e o ex-vice da Comissão da Arbitragem, Valdir de Souza e Antônio Carvalho – afastados dos cargos na semana passada –, o presidente licenciado do Conselho Deliberativo do Operário, Sílvio Guber, e o ex-árbitro José Francisco de Oliveira, o Cidão, que confessou sua participação no esquema.
Segundo Sacerdote, ainda não há indícios de envolvimento do presidente da Federação Paranaense de Futebol (FPF), Onaireves Moura. Porém o dirigente pode ser convocado para depor se aparecer alguma denúncia no decorrer das investigações.
"Pelas provas que já possuo, estou convencido de que existe o esquema de corrupção na arbitragem. Agora estou tentando conseguir meios de provar", disse Sacerdote.
Os auditores querem ouvir Cidão. Considerado peça-chave no processo, o depoimento do ex-árbitro é aguardado para apresentar as provas que diz ter. "Precisamos interrogá-lo, nem que seja por e-mail". Porém, da Inglaterra, Oliveira avisou. "Só vou depor em caso de ordem judicial."
Sacerdote quer saber quem eram as pessoas que estavam no jantar em que Cidão teria dito que iria "chutar o balde". "Quem estava naquele jantar provavelmente será indiciado. Sei que participaram seis ou sete pessoas. Árbitros, dirigentes da Federação e da Comissão de Arbitragem", disse.
Ontem foram ouvidos o árbitro da partida entre Operário e São José (no dia 30 de julho quando a ESPN Brasil gravou a reportagem), Antônio Salazar Moreno, o representante da Federação no jogo, Arari Teixeira, vice-presidente afastado da Comissão de Arbitragem, Antônio Carvalho, e os dirigentes da FPF, Almir Zanchi e Johelsson Pissaia – inicialmente eles seriam ouvidos hoje, mas acabaram falando no início da noite de ontem. "Todos disseram que não sabem de nada e desconhecem qualquer esquema."
Robson De Lazzari
MENSALÃO DO APITO-Junta indicada pela FPF não possui ex-árbitros, como exige a entidade
Comissão contraria a Fifa
A nova Comissão de Arbitragem da Federação Paranaense de Futebol (FPF) – nomeada na semana passada, em meio à suspeita de corrupção no apito estadual – nasceu em desacordo com as orientações da Fifa.
Segundo o órgão que dita as regras do esporte no planeta, faz-se obrigatória a presença de ex-árbitros ("com vasta experiência") na cúpula do apito. A decisão aparece na circular 763, divulgada em julho de 2001, mas não prevê sanções específicas para quem a contraria.
Após a crise do "Bruxo" (alcunha do responsável por operar o suposto esquema de compra de arbitragem), a FPF colocou à frente da arbitragem três dirigentes sem nenhuma história como juiz de futebol: Henrique Mehl, Dilon Valdrigues e Paulo César da Silva.
"Foi uma decisão emergencial, feita em cima da hora. Ficou complicado encontrar alguém para dar essa contribuição. Na história da Federação, sempre tivemos pessoas ligadas à função no comando deste departamento", disse Onaireves Moura, presidente da FPF.
"Passado esse período de investigações, poderemos voltar com o Valdir de Souza (o ex-chefe da Comissão que pediu afastamento, assim como outras cinco pessoas ligadas a ele, durante o inquérito do mensalão). Também estudaremos trazer alguém especializado na área. É preciso se restabelecer antes de buscar um nome", completa.
Apesar da justificativa, há quem cobre uma rápida providência – sobretudo devido ao momento delicado da categoria, envolvida em denúncias de propina.
É o caso do ex-árbitro Valdir de Córdova Bicudo, hoje superintendente da delegacia do Alto Maracanã, em Colombo. "Sou favorável à criação imediata de um colegiado. Só assim resolveremos essa situação caótica no campo ético e moral. Ex-profissionais como Ivo Tadeu Scatola, Luís Carlos Pinto de Abreu, Valdir Festugato, Tito Rodrigues e José Carlos Megher teriam todas as condições de moralizar tudo isso", sugere.
José de Assis Aragão, atual presidente da Associação Nacional dos Árbitros (Anaf), lamenta a falta de isenção. "Com certeza estão colocando gente ligada de alguma forma às equipes. Infelizmente, essas pessoas podem agir com o coração e não com a razão", adverte. Paulo César da Silva surge como candidato à presidência do Paraná; e Dilon Valdrigues veio do Combate Barreirinha, time amador de Curitiba.
Moura refuta essa ameaça na imparcialidade. "Todo mundo tem histórico de filiação a algum time. Eu mesmo tenho. O que vale não é o passado, mas o presente. Mesmo que eles sejam conselheiros de alguma associação, não exercem função administrativa", defende.
Amanhã, às 14 horas, na sede da Federação, ocorre o sorteio da escala de árbitros para a primeira rodada da segunda fase na Série Prata (Segunda Divisão do Paranaense). Será a primeira ação efetiva da saída provisória que afronta a entidade máxima do futebol.
Rodrigo Fernandes
MENSALÃO DO APITO
TJD rastreia telefonemas
O Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) tomou novas medidas para tentar descobrir quem são os envolvidos no suposto esquema de manipulação de resultados no futebol paranaense. As contas telefônicas da Federação Paranaense de Futebol (FPF) e de aparelhos celulares utilizados por diretores da entidade foram requisitadas para se checar quantas vezes havia conversas entre possíveis corruptores.
"Pedimos essas contas ao departamento financeiro da Federação. Quero ver esses extratos para saber se realmente há um excesso de ligações para este ou aquele envolvido no caso. Por que tanta conversa?", questionou o auditor do Tribunal, Otacílio Sacerdote Filho.
Além disso, todas as súmulas de partidas dirigidas pelo ex-árbitro José Francisco de Oliveira, o Cidão, nos anos de 2004 e 2005 foram solicitadas – na edição de ontem da Gazeta do Povo, o ex-juiz disse que trazia uma encomenda para um dirigente da FPF dentro de um envelope.
"Vamos ver quais eram os clubes que estavam atuando em cada partida que ele (Cidão) apitou. Aí vamos perguntar se mandaram algum tipo de envelope para a Federação e o que tinha dentro", afirmou.
Porém, mais do que interrogar os clubes, Sacerdote quer ouvir José Francisco de Oliveira. Ontem, um e-mail foi enviado para o ex-árbitro que está na Inglaterra tentando demovê-lo da intenção de só falar sob ordem judicial. "Vou tentar falar com ele até o fim dessa semana. Ele é peça-chave na investigação."
O ex-presidente do Sindicato dos Árbitros do Paraná, Amoreti Carlos da Cruz, único convocado para depor ontem no TJD, não compareceu. Amanhã terminam os 15 dias de prazo para conclusão do processo. Porém a prorrogação de mais 15 dias – prevista em lei – será utilizada. A intenção é concluir a investigação até o fim da semana que vem.
Robson De Lazzari
MENSALÃO DO APITO - Entidade decide "importar" juízes para apitar na Série Prata enquanto corrupção é investigada
FPF coloca árbitros sob suspeita
Todos estão sob suspeita. Essa é a conclusão natural após o afastamento provisório dos árbitros e auxiliares que já atuaram na edição 2005 da Série Prata. Quatro juízes de Santa Catarina foram indicados para a primeira rodada da segunda fase do torneio, marcada para o fim de semana. Os bandeiras serão do quadro da Federação Paranaense de Futebol (FPF), mas não haviam sido escalados em nenhuma partida até o momento.
Segundo o presidente da FPF, Onaireves Moura, a medida emergencial será prorrogada até o encerramento do inquérito sobre corrupção, em andamento no Tribunal de Justiça Desportiva (TJD).
"Não estamos pondo em dúvida nenhum nome. Acontece que todos foram jogados na lama, sem provas, por uma certa pessoa (José Francisco de Oliveira, o Cidão, que denunciou o suposto esquema). Anteriormente a Federação tinha argumentos para avalizar sempre árbitros locais, mas no momento não podemos fazer isso", afirmou Moura, que culpa a desunião dos apitadores paranaenses pela situação ter atingido tal estágio.
A contradição nas palavras de Moura aparece no momento em que todos os juízes foram afastados de uma vez. A generalização deixou a classe em uma situação pouco confortável, conforme deixa claro o presidente da Associação de Árbitros do Paraná (AAP), Henrique França Triches. "Sou contra. Estão fazendo um pré-julgamento. Todo mundo, inclusive eu, está colocado sob suspeita. É uma decisão precipitada que, espero, seja rapidamente revista."
Nos próximos quatro jogos da Série Prata, os catarinenses Paulo Henrique de Godói Bezerra, Jéfferson Schmidt, João Fernando da Silva e José Acácio da Rocha serão os mediadores. Se a questão não for resolvida até a segunda rodada, novamente serão requisitados juízes de fora. Para a seqüência, a solução apontada pela FPF é uma "limpa" no quadro de arbitragem.
Porém, Moura sustenta que a obrigação de conduzir o processo de depuração não é da entidade. Ele solicitou à AAP uma lista com o nome dos árbitros considerados aptos a continuar trabalhando. O documento será levado a apreciação dos clubes, antes de chegar às mãos do ouvidor do Campeonato Paranaense, José Roberto Dutra Hajebock.
"Está sendo tudo jogado para a Federação. Mas não cabe a nós assumir a responsabilidade sobre a idoneidade de pessoas que não conhecemos. Temos cerca de 400 filiados e é impossível garantir a conduta moral de todos", justificou Moura.
Para evitar injustiças, ele prometeu que qualquer veto será analisado cuidadosamente antes de o árbitro ser afastado definitivamente. Porém o quadro não deve sofrer mudanças.
A AAP dificilmente fará algum corte. "Não tenho indícios para vetar nenhum membro. Se o TJD descobrir o envolvimento de algum dos nossos filiados, será prontamente afastado. Mas, com a investigação em curso, não posso barrar profissional algum. Todos, em princípio, estão aptos", argumentou Triches.
Nícolas França e Rodrigo Fernandes
MENSALÃO DO APITO
Crise expõe racha na arbitragem
Valterci Santos/Gazeta do Povo
Dirigentes realizam sorteio para a próxima rodada da Série Prata.
A crise que vive a arbitragem local começa a expor uma classe fragilizada, com pouca assistência, refém da política adotada pela Federação Paranaense de Futebol (FPF) e, sobretudo, desunida.
Sem harmonia fora de campo, os profissionais do apito que atuam no estado não conseguem nem mesmo formar um grupo de representação trabalhista. Estão divididos e longe de encontrar um caminho para o consenso.
Tem-se, de um lado, uma associação – com aproximadamente 280 filiados e o reconhecimento de Onaireves Moura. Do outro, surge o sindicato da categoria – formada por 54 ex-juízes e desprezada pelo presidente da FPF.
"Não temos amparo legal algum. Há casos de colegas que deixaram os estádios correndo, fugindo por buraco de alambrado. A Federação é o nosso patrão e deve nos dar um seguro e acatar as taxas de jogo aprovadas em convenção", cobra Amorety Carlos da Cruz, responsável pelo Sindicato Profissional dos Árbitros de Futebol do Paraná (Sinpaf).
Diante deste quadro, denuncia-se um possível boicote do dirigente para evitar a sonhada coalisão. Dissemina-se a idéia de que brigar pelos direitos pode ser sinônimo de "geladeira" na escala dos jogos.
"Fizemos uma Assembléia Geral, no dia 27 de agosto, às 9 horas, no Pinheirão. Queríamos unificar todo o quadro. Estava presente dois chefes da Delegacia Regional do Trabalho (DRT) para nos mostrar as vantagens. No mesmo horário, na sede da FPF, o Moura rapidamente deu força à associação. Resultado: não conseguimos a união", lamenta Amorety.
"Não sou a favor de um ou de outro. A associação tem 100% do quadro e 20 anos de história. É a parte legítima. Na minha opinião, o sindicato é para atender classes de trabalhadores – como metalúrgicos, por exemplo. E árbitros são autônomos, trabalham por meio de recibo", justifica Onaireves. Além do Paraná, somente o Acre não tem uma corporação com poder político de representação.
O juiz Henrique França Triches é o responsável pela Associação de Árbitros do Paraná (AAP) – órgão com problemas financeiros (reconhece uma dívida de R$ 24 mil) – e que às vésperas de vazar a história do "Bruxo" amargou a renúncia de Francisco Carlos Vieira da presidência.
Ele evita polêmica. "Não sei os motivos que fazem o sindicato ter pouco apelo entre os colegas. Cada um tem sua cabeça, age de forma autônoma e deve ter seu motivo pessoal. Estamos fazendo a nossa parte pelo fortalecimento da arbitragem paranaense", aponta.
Rodrigo Fernandes e Nícolas França
MENSALÃO DO APITO
TJD investiga conta suspeita e "caso Cidão"
O inquérito que investiga a suposta corrupção na arbitragem paranaense – o chamado "mensalão do apito" – abre hoje a segunda etapa de depoimentos no Tribunal de Justiça Desportiva (TJD-PR).
No rastro da investigação, surgem agora duas frentes: o caminho deixado pelo juiz José Franciso de Oliveira, o Cidão; além da conta bancária do antigo vice-presidente da Comissão de Arbitragem, Antônio Carvalho.
O auditor do caso, Octacílio Sacerdote Filho, convocou para depor os dirigentes de Atlético, Nacional, Rio Branco, Engenheiro Beltrão, Paranavaí e Império do Futebol – clubes com jogos mediados por Cidão. Eles serão ouvidos a partir das 9 horas, na sede do TJD-PR.
Na lista de depoimentos também entrará o assistente Rogério Luder, que participou do gol inexistente na partida Atlético e Império, em 20 de fevereiro. "Não posso ajudar em nada nessa apuração, mas vou aparecer por não ter nada a esconder", avisa o bandeirinha.
Mas o ponto alto do dia deve envolver a denúncia de caixa 2 que ganhou força no fim de semana passado. A história diz respeito aos possíveis depósitos de dirigentes e árbitros na conta de Antônio Carvalho, vice de Valdir de Souza – antigo chefe do apito reional.
"Temos denúncias anônimas que diretores de dois clubes andaram fazendo contribuições suspeitos. Estas envolveriam o Engenheiro Beltrão e o Prudentópolis", antecipa Otacílio Sacerdote Filho. "Não temos provas, mas esperamos pelo menos a colaboração e alguns testemunhos importantes", completa.
O presidente do Engenheiro Beltrão já se manifestou. Em nota à imprensa, Luiz Heitor Linhares não entende como está sendo envolvido na crise. Quer esclarecer os fatos, sobretudo, as insinuações de Evandro Roman (o árbitro paranaense do quadro da CBF afirmou que o time do Noroeste poderia colaborar com o fim da corrupção).
"Estamos vendo no futebol uma nova versão do filme Harry Potter, pois o que mais temos são bruxos – uns 15, segundo ele (Roman)", ataca. "Ele jogou ao vento palavras confusas e levianas, sem se quer apontar uma prova, o que já admite não ter." Citado como suspeito,o presidente do Prudentópolis, João Ituarte, também é esperado pelo Tribunal.
Entenda o caso
A suspeita de corrupção na arbitragem paranaense começa a atingir dirigentes. Uma história que já fez rolar cabeças e promete ainda mais.
* 28/8 – Em matéria veiculada na ESPN Brasil, dirigente do Operário confirma dar R$ 2 mil ao chamado "Bruxo", alguém ligado à arbitragem. O pagamento garantiria um apito amigo.
* 6/9 – O ex-árbitro José Francisco de Oliveira diz à Gazeta do Povo que participou da corrupção na arbitragem, garante que Valdir de Souza, chefe do apito na FPF, era conivente. Toda a Comissão de Arbitragem pediu afastamento do cargo. Assume uma junta provisória.
* 14/9 – Onaireves Moura comunica a CBF da crise e recebe a orientação de afastar todos os árbitros do quadro regional. A Série Prata começa a segunda fase com juízes de Santa Catarina.
* 16/9 – Denúncia aponta a existência de uma conta suspeita em nome de Antônio Carvalho, antigo vice-presidente da Comissão de Arbitragem. Dirigente nega ter operado esquema de corrupção.
* 17/9 – Imprensa ouve o árbitro Evandro Roman, do quadro da CBF, e escuta um desabafo. Ele diz que corrupção envolve apitadores da capital e exige uma lavagem de roupa suja entre os colegas em pleno TJD.
Rodrigo Fernandes
MENSALÃO DO APITO-Dirigente do Engenheiro Beltrão diz ter feito dois depósitos na conta de Bortolo Escorsin
Cartola implica presidente do TJD
Marcelo Elias/Gazeta do Povo
O auditor Otacílio Sacerdote Filho promete finalizar até quinta o inquérito do mensalão do apito.
O depoimento do presidente do Engenheiro Beltrão, Luís Heitor Linhares, ontem, no Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) sobre o mensalão do apito deixou marcas para todos os lados. Entre as afirmações, a mais grave atingiu o principal integrante do órgão que está tentando elucidar a situação: o presidente do TJD, Bortolo Escorsin.
O cartola apresentou um comprovante de depósito feito por ele na conta conjunta de Escorsin, e da vice, Adriana de França. O dinheiro (R$ 100) é referente ao pagamento da taxa de recurso da ação que confirmou a queda do Engenheiro no Paranaense em primeira instância.
Linhares contou ainda que em 2004 a pena imposta pelo TJD ao atacante Élton Alexandre da Silva, de sua equipe Júnior, era de dez cestas básicas e foi paga da mesma maneira: depósito na conta de Escorsin.
"Eu ligava para ele (Escorsin) e perguntava como eu pagava essas taxas. Ele respondia: 'Põe na minha conta'."
De acordo com o o artigo 176 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD), os pagamentos de penas e taxas devem ser feitos para a "entidade que rege o desporto". No caso, a Federação Paranaense de Futebol (FPF).
"A FPF tem um sério problema de CNPJ e por isso o Tribunal nos autorizou a abrir essa conta para recebimento de valores dos clubes do interior. Os da capital pagam aqui no guichê da Federação. Mas reconheço que a situação é irregular", admitiu Escorsin, que disse ter mandado cancelar a conta.
O jurista afirmou não temer a perda de credibilidade do Tribunal porque está "apenas ajudando os clubes do interior". Ele também revelou o destino dos recursos arrecadados.
"O dinheiro, que não chega a R$ 1,5 mil por mês, é usado para pagar o cafezinho, a internet, a água e o material de escritório que a Federação deixa conosco. Todos os clubes sabem disso, é uma prática de muitos anos. Repassei as cestas básicas para entidades de assistência", confirmou.
O diretor financeiro da Federação, Cirus Itiberê da Cunha, desmentiu Escorsim. Ele disse que o nome da FPF não está sujo, e existe uma conta específica para o depósito de taxas e multas. "Não sei por que ele está usando a conta particular", disse.
Convocado para depor após o Engenheiro – rebaixado na Série Ouro deste ano – ser citado pelo árbitro Evandro Rogério Romam como um clube que "poderia dar detalhes" sobre a manipulação de resultados no estado, Linhares desabafou.
"Depois que ele citar e provar quais são os 15 nomes que estão envolvidos no esquema, eu sento frente a frente com ele. Não adianta ficar jogando coisas no ar, tem de provar. Por que não veio aqui hoje (ontem)? É um pipoqueiro", disse.
O dirigente também disse ter feito um depósito na conta de Antônio Carvalho, ex-vice presidente da Comissão de Arbitragem, e um investimento de R$ 10 mil em avestruzes – através da empresa Top Avestruz do presidente da FPF, Onaireves Moura.
"A pedido do Johelsson Pissaia (diretor administrativo da Federação), fiz o investimento nos avestruzes. Em setembro do ano passado, depositei na conta do Carvalho para pagar as despesas de um torneio Sul-Brasileiro amador que ocorreu em Engenheiro Beltrão. Mas nunca paguei nenhum dinheiro de propina", afirmou.
Pissaia negou ter solicitado a Linhares o investimento na compra das aves.
Robson De Lazzari
MENSALÃO DO APITO - Profissionais do estado voltam à Série prata na rodada do fim de semana
Federação tira árbitros paranaenses da geladeira
A geladeira aos árbitros paranaenses na Série Prata acabou. O presidente da Federação Paranaense de Futebol (FPF), Onaireves Moura, e o novo presidente da Associação Paranaense de Árbitros de Futebol (Apaf), Henrique França Triches, chegaram ontem a um acordo para que os apitadores do estado voltem a trabalhar no próximo fim de semana.
Na rodada disputada no domingo, foram "importados" profissionais de Santa Catarina. A Federação considerou arriscado escalar pessoas que pudessem estar envolvidas no mensalão do apito.
O suposto esquema de corrupção foi o principal tema da posse de Triches, ontem à noite. O médico fez um discurso bastante duro, cobrando transparência e atacando os juízes que vão à imprensa denunciar sem provas os árbitros supostamente envolvidos no esquema. O recado foi claramente para Evandro Roman, que depor hoje no TJD, e José Francisco de Oliveira, que fez graves denúncias sobre o caso.
"Emprestei meu nome para acabar com esse mar de lama que virou a arbitragem do Paraná. Precisamos parar com o que chamo de onda Roberto Jefferson (deputado federal do PTB cassado por quebra decoro parlamentar após tornar público o esquema do mensalão no governo federal). Acusar é fácil, mas cadê as provas?", afirmou, para uma platéia de aproximadamente 50 pessoas ligadas ao apito estadual.
pedindo algo. Já ia para o trabalho com a cabeça rachando", lembra."Se vocês sabem de corrupção, falem, denunciem. Quem tem como provar que vá ao tribunal e dê nome aos bois. No que depender da associação, todo o apoio será dado para que isso aconteça", prosseguiu.
Triches disse ainda que o registro dos árbitros comprovadamente envolvidos no caso será cassado. Partindo no entanto da premissa de que todos são inocentes até que se prove o contrário, ele tornou a pedir mais responsabilidade aos acusadores. Partiu até mesmo para uma ameaça velada.
"Eu não escondo bandido. A laranja podre terá de sair do nosso convívio para não prejudicar o trabalho de quem é honesto. Eu faço questão de não aceitar a inscrição de quem estiver envolvido com corrupção. Que vá apitar em Santa Catarina ou no Paraguai. Aqui no Paraná, não", argumentou. "E o mesmo vale para quem denuncia sem provas. Ou fala tudo o que sabe ou não abra a boca", complementou.
Carlos Eduardo Vicelli
Legenda da foto: ao centro o árbitro Marcos Tadeu Mafra, que apitou A. Paranaense 3x3 Coritiba, na final do Campeonato Paranaense 2004
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)