
AVALIAÇÃO
Histórico
Ousa-se dizer que o sistema tático 3x5x2 teve sua origem influenciada pela Copa do Mundo de 1974. A seleção da Holanda que naquela Copa ganhou os apelidos de Laranja Mecânica e Carrossel Holandês, por seu sistema tático de constantes movimentações, no qual os jogadores não guardavam posições no campo.
Em 1974, o então técnico da seleção holandesa Rinus Michels inovou o futebol mundial utilizando um sistema tático mirabolante, até mesmo espetacular. Com exceção do goleiro, nenhum outro jogador guardava posição, ocupando espaços em diversos setores do campo, formando um verdadeiro carrossel.
Apesar de imaginável anarquia em campo, o sistema funcionou devido a uma extrema obediência tática e pelo sucesso na escolha das peças (jogadores) que formavam a equipe holandesa, sendo o destaque do time o armador Johannes Hendrikus Cruyff. Talvez, o sucesso dessa fórmula seja o principal motivo desse sistema nunca ter sido utilizado com eficiência por qualquer outro clube ou seleção.
A dificuldade dos clubes ou seleções em repetir o sistema tático do Carrossel Holandês, deu origem, por sua adaptação, ao sistema tático conhecido como 3x5x2.
Esse sistema era formado pelo goleiro, dois zagueiros, dois laterais, um volante, três meias e dois atacantes. Um dos três meias era chamado de líbero, sendo o maior deles em todos os tempos, o alemão Franz Beckenbauer.
Como o próprio nome já diz, o líbero tinha total liberdade para jogar em qualquer setor do campo, não tendo a obrigação de marcar o adversário.
Entretanto, o sistema 3x5x2, amplamente utilizado na Europa até o final da década de 1990, apresentou uma falha, a fragilidade na marcação do meio-campo, pois as equipes jogavam com apenas um volante, arriscando-se mais ao contra-ataque, que tornou-se uma arma letal usada pelos adversários.
A identificação de tal falha foi fundamental para que o continente europeu praticamente abolisse o sistema tático 3x5x2 do seu futebol há muitos anos.
A maioria dos principais clubes europeus, devido ao seu poder de fogo para comprar jogadores de extrema qualidade técnica e adaptabilidade tática, acabaram optando por uma variação tática onde os dois laterais apóiam bastante, bem como os dois volantes (de qualidade tanto no passe, como no desarme) saindo para o jogo ofensivo. Estes volantes, com características quase que de meias amadores, são peças-chave nestes modelos táticos.
No Brasil
O brasileiro, com toda a sua criatividade, inventou uma variação do sistema 3x5x2, substituindo o líbero por mais um zagueiro, dando-se origem ao sistema tático com três zagueiros, erroneamente chamado por muita gente, de 3x5x2. Este é o modelo nitidamente defensivo, atualmente utilizado amplamente no Brasil, inclusive sendo referencial à uma suposta modernidade nos campos do Paraná.
Originalmente formado pelo goleiro, três zagueiros, dois laterais que são denominados de alas, um volante, dois meias e dois atacantes, esse sistema tático sofre diversas adaptações, dependendo de equipe para equipe e de jogo para jogo.
Ao invés de se utilizar um volante e dois meias, pode-se escalar dois volantes e um meia, dando-se ainda mais liberdade aos alas que passam também a freqüentar o meio de campo.
Na teoria, o sistema com três zagueiros se demonstra bastante interessante, sendo inclusive o sistema utilizado pela seleção brasileira na conquista do Pentacampeonato em 2002. Porém, na prática, tal sistema se demonstra muito defensivo, um verdadeiro 5x3x2, fazendo as equipes sobreviverem apenas de contra-ataques, se tornando reféns da velocidade, habilidade e eficiência dos dois atacantes. Abandona-se assim, a premissa histórica de que a melhor defesa é o ataque.
Usualmente os treinadores colocam um atacante fixo entre os três zagueiros, avançam o meio de campo e a defesa, empurrando o time que joga no 5x3x2 para seu próprio campo, esperando o erro, como as jogadas de bola parada, ou como os erros individuais (várias vezes decorrentes da sobrecarga física que o sistema exige).
Outra alternativa tática é a utilização de um jogador diferenciado no ataque. Apesar de raros pelo Brasil, um jogador com diferencial técnico causa um reboliço danado aos três zagueiros, já que os melhores zagueiros brasileiros estão fora do país.
É um modelo tático temerário o dos três zagueiros, na medida em que as jogadas individuais originam gols, penalidades máximas ou faltas próximas da área. Historicamente, nos últimos anos os gols originários em cobranças de bola parada acontecem cada vez mais em Campeonatos Brasileiros.
Alguns técnicos, como Antônio Lopes, faziam do ala de explosão (como Rafinha e Adriano) um marcador, o homem da sobra. Este ala tinha que deixar o seu lado do campo para cobrir a diagonal dos zagueiros, num desgaste físico marcante, que acabava por prejudicar o ataque usando um dos ditos alas. Um verdadeiro desperdício de potenciais ofensivos. Basta ver o rendimento de Rafinha e Adriano no futebol europeu.
Nos últimos anos, uma nova corrente tática tirou um dos zagueiros (em geral, atletas de menor mobilidade e maior força) para um volante com características de velocidade (preferencialmente com boa saída de bola, para jogar com os alas). Neste formato, mais ágil e veloz, os times passaram ter um ganho no desempenho ofensivo.
No atual Coritiba
Prestes a estrear na Copa do Brasil, surge a dúvida quanto a segurança defensiva da equipe Alviverde, pois o torneio, no estilo mata-mata, não permite erros. É histórico que uma derrota ou até mesmo um gol sofrido em casa pode comprometer todo um trabalho.
Existe uma suposição que que tal receio levou o técnico Márcio Araújo a testar, sem sucesso, no decorrer da partida contra a ACP, no domingo último, o sistema tático com três zagueiros, quase comprometendo o resultado do jogo.
Naquela partida, o técnico Alviverde iniciou o jogo utilizando o sistema tático 4x4x2, fazendo com que o meia Jackson fizesse a função de segundo volante, portanto, sem novidades em relação às escalações anteriores. Com vantagem no placar e com a inoperância do atacante Ludemar, Márcio Araújo sacou o centroavante e promoveu a estréia do zagueiro Marcelo Batatais, deslocando o meia-atacante Eanes para o setor ofensivo.
Com isso, a equipe Coxa-Branca recuou, pois perdeu poder ofensivo, fazendo com que a ACP não se preocupasse com o seu sistema defensivo, se lançando ao ataque. Depois que o adversário conseguiu seu objetivo, ou seja, o gol de empate, Márcio Araújo teve que corrigir sua experiência e sacar um zagueiro (Anderson, que tinha levado um cartão amarelo) para entrada de um atacante (Anderson Gomes). Com esta mexida, Araújo restabeleceu o sistema 4x4x2, com variantes para o 4x3x3, já que Eanes fazia a função de meia-atacante.
Assim, o Coritiba voltou ao ataque, ocupando todos os setores do campo, conseguindo transpor a barreira defensiva da ACP e conquistando a vitória no final da partida.
Portanto, o técnico Márcio Araújo deve entender que para utilizar o sistema com três zagueiros, o elenco deve possuir peças (jogadores) adequadas para tanto, surgindo uma grande dúvida: será que os atuais laterais do Verdão Coxa-Branca possuem as características de alas? Pelo que demostraram em quase uma dúzia de jogos, não.
Diante desta dúvida, o técnico Coxa-Branca pode realizar um novo teste, levando um dos três meias (Jackson, Renan ou Eanes) a perder sua vaga na equipe titular.
Caso o Cori tenha a entrada de um jogador de armação no seu meio-campo, como Guaru (ou Caio, se este acertar seu contrato), surge uma nova opção tática: com Guaru, um time que aproveite os lançamentos e passes em profundidade do Guaru (teríamos que ter bons alas).
Já com um jogador com características similares as do Caio, o Coxa seria um time de carregadores de bola, mais facilmente marcável quando enfrentarmos uma zaga bem treinada (como a do Goiás, de 2005).
Seguindo este raciocínio, Márcio Araújo escalaria um segundo volante de ofício ao invés de improvisar o meia Jackson. Assim, a equipe Alviverde ganharia mais “pegada” no meio campo, soltando mais os laterais, sempre de maneira alternada, ou seja, quando um lateral ataca, o outro guarda posição. Ou ainda, quando o ataque for pelo meio campo, os dois laterais guardam posição, participando, um ou outro, do ataque, com consciência e inteligência, sob pena de fragilizar o sistema defensivo.
De qualquer forma, o técnico Márcio Araújo terá que alterar o atual sistema tático utilizado, pois o nível técnico do Campeonato Paranaense é muito inferior ao nível técnico da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro, onde jogar com apenas um volante de ofício pode ser fatal às pretensões coritibanas.
Por isso, o técnico de futebol ocupa uma posição de extrema importância. Trata-se de um estrategista sempre, suas escolhas são fundamentais. E a Nação Coxa-Branca espera que o técnico Márcio Araújo faça a escolha certa.
Para que a minha glória a ti cante louvores, e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te louvarei para sempre. (Salmos 30:12)