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ArquibancadaSergio Brandão

A instituição ATLETIBA

A instituição ATLETIBA
Ano passado, mesmo depois dos 3 x 0 na baixada, eu ainda fui ao Couto acreditando que era possível reverter. Naquela época, há um ano, já tinha gente desacreditada e largando os “bets”. Eu e mais uma turma grande preferimos apostar que era possível.

Do alto dos meus 60 anos, ainda fui na Mauá receber a delegação que chegava ao Couto para aquela partida decisiva. Como sempre, a festa foi bonita, o clima na rua era positivo e a minha primeira impressão foi que era mesmo possível reverter.

Só não fui capaz de perceber que eram dois sentimentos. O nosso, da torcida, e o sentimento deles, da comissão técnica. Não estávamos vibrando na mesma faixa e não deu. Aliás, foi pior do que imaginávamos. Além de não reverter, foi um time apático, sem tesão, e perdeu mais uma. Fomos pra história com uma baita lambada nas costas. Problemas mais que conhecidos de todos, que não merecem ser lembrados com mais requintes de crueldade, pra não judiar ainda amais da torcida Coxa. Aquilo foi mesmo difícil.

Só pra arrematar: naquele dia, ainda na Mauá, cheguei perto do ônibus quando atletas e comissão técnica passaram por um corredor de torcedores que gritavam os nomes de cada um que passava ali. Até o Bacellar ganhou palavras de incentivo. Não vi nos olhos deles, de ninguém, nenhuma confiança. Todos, sem exceção, desceram do ônibus olhando pro chão. Saí da Mauá e fui pra arquibancada com um mau pressentimento. O resto da história vocês sabem qual foi.

Desta vez não me pegam. Não tenho mais este desprendimento, o incondicional. Aliás, não é mais incondicional. O amor ficou, mas com ressalvas.

Continuo longe do Couto, torcendo, é verdade, mas me dou o direito de não ir, embora sedento, morrendo de vontade de ver meu time. Seria bacana se conseguisse, mas não vou.

Só que não me privo do sentimento do atletiba que não sai daqui de dentro. O sentimento do maior clássico do futebol do Paraná, coisa que aprendi a cultivar ainda criança. Há mais de 50 anos vivendo muitos deles. De partidas de meio de campeonato, de clássicos no brasileiro e de decisões de paranaense. Todas com o mesmo sentimento, embora hoje as coisas sejam bem diferentes, mas ainda é um atletiba. Como todos os outros, cada um com sua história peculiar.

Este, pelo que vejo, o segundo do Youtube, (grande indicação de que os tempos são outros mesmo). Fico imaginando naquela época quando a gente não podia nem pensar em assistir uma partida destas por um aparelho ou um sistema como este. Se alguém falasse em algo assim, seria chamado de maluco, coisa mesmo de outro mundo. Mas na essência ainda falamos de um atletiba como todos os outros, a grande rivalidade das cores, porque atletiba há tempos virou instituição.

Coritiba e Atlético cresceram, chegaram à maturidade e hoje são grandes. Batem de frente com a Federação e são maiores que ela, que precisa se render aos dois. "Criador e Criatura", algo do gênero. Coritiba e Atlético são maiores que o futebol paranaense, só seus dirigentes não enxergam isso. Se enxergam, caminham por vias erradas.

Esta conquista é exclusiva das duas torcidas que trouxeram os dois clubes no colo, até aqui. Por isso, não serão estes dirigentes e nem estes “cabeças de bagre” que colocam em campo, que serão capazes de tirar o brilho de mais um atletiba eletrizante. Se não é tão eletrizante assim, nossos corações ainda insistem em dizer que sim.

Lembro que naquele famoso atletiba do brasileiro, que o Walter perdeu o gol da vida dele, no Couto Pereira, eu olhava para o campo e não via jogadores. As camisas andavam sozinhas. Eu não queria saber quem a vestia. Foi o jeito que encontrei para proteger o meu time daqueles atletas que eu julgava não serem merecedores de vestir a gloriosa verde e branca.

Você deve tá dizendo, este cara é maluco! Ao mesmo tempo que fala que não vai mais ao estádio, enche a bola da dupla. Vê os jogos de forma estranha. Atletiba é história, a mística do clássico é mais forte que tudo. Maior que dirigentes, empresários, conselheiros e estes caras que andam vestindo a camisa do meu clube.

Aos 60 anos, depois de mais de 50 vividos no Belfort Duarte e agora Couto Pereira, me dou a este luxo, sim. Amo este clube.

A partir deste domingo, estaremos juntos certamente, mas de coração, até que no outro domingo tenhamos um campeão... que seja o Coritiba.

Sobre o autor

Sergio Brandão
O Coritiba está na minha alma, muito mais até que no coração. Aprendi a gostar de futebol assim, de alma e também de coração. Sou do tempo do Belfort Duarte, hoje Couto Pereira. Isso foi no início dos anos 60. De lá nunca mais saí. Na década de 70, o Coritiba me conquista definitivamente, quando montou times inesquecíveis, várias vezes campeão. Período que passei a frequentar programas de rádio para tentar ficar o mais próximo que podia do futebol. Foi a época de Dirceu Graeser, no famoso"Viva o Futebol", na Rádio Clube, depois Rádio Cruzeiro. Foi o meu começo nos meios de comunicação. Vivo do jornalismo há mais de 30 anos, dedicados ao Rádio e principalmente televisão. Hoje sou muito mais da arquibancada. Sou mais torcedor e menos jornalista, principalmente quando o assunto é Coritiba.

Sobre o blog

Sou jornalista há mais de 30 anos. A profissão e a condição de torcedor, me fizeram aprender a policiar posições quando escrevo para tv ou rádio. Isso me desenvolveu muito o lado crítico. Costumo dizer que futebol é uma coisa e esporte é outra, bem diferente. Basicamente porque o futebol se transformou num produto da mídia e envolve muito dinheiro. O esporte amador, não. Sem dinheiro ele apenas sobrevive. É o caminho que o vôlei começou a tomar, por exemplo, mas ainda passa longe de ser o sucesso que é o futebol. Gosto de escrever sobre os dois: esporte e futebol. Jornalismo é minha profissão, o Coritiba minha paixão. Será um prazer estar aqui com vocês falando sobre tudo isso.
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