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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

A dor do meu sucessor.

Logo depois de postada a minha última coluna, “Apatia x Indignação”, recebi do meu filho, via WhatsApp, o texto que reproduzo adiante.

O Alexandre veio comigo para o RGS com seis anos de idade, em 1976, já inoculado com o vírus daquele grande Coritiba que conheceu. Levava-o aos jogos na “cacunda”, e ao aqui chegar ele não quis saber de time gaúcho, ainda que só pudesse acompanhar o Coritiba pelas ondas curtas da PRB2. Foi e até hoje é, tal como eu, torcedor unicamente do Coritiba Nunca esqueço que em 1985, quando da decisão do campeonato brasileiro, de tão angustiado e ansioso que estava, chegou a vomitar antes do jogo. Depois “vomitou” uma explosão de alegria que deixou muitos da cidade onde morávamos sem entender a gritaria toda e os fogos soltados na madrugada. Sua fé fez com que o meu neto, Vítor, ainda que aqui nascido, se tornasse também torcedor do Coritiba, em que pese vivendo os maus momentos que o clube constantemente nos tem propiciado.

Pela qualidade e sensibilidade do texto que enviou para mim, sinto, orgulhoso, que quando os males da idade (a velhice nada tem do eufemístico “melhor idade” gurizada) me atingirem e não puder escrever mais, certamente ele poderá me suceder neste espaço.

Lamentável esse momento. Infelizmente tive que me vacinar para ñ sofrer tanto. Foi um remédio amargo, mas não consigo mais torcer, não reconheço mais meu clube que virou apenas um símbolo e nada mais.

Sim, o amor por uma bandeira é quase irracional, é paixão. E o amor não correspondido é sofrido. Pra não sofrer ignoro a realidade, a TV fica ligada e eu fico comendo, bebendo e navegando pelo celular. Já espero a derrota.
O sempre otimista Alexandre não existe mais.

O bom disso tudo é que o tempo dedicado ao clube está sendo usado para atividades que me tornam uma pessoa melhor: música, família e amigos.
O Coxa sempre foi pra mim uma representação da minha origem, uma representação do meu pai, dos meus tios, dos meus primos e da minha cidade.
Tenho tatuado o escudo do Coxa e assim como o amor ao clube, nunca acabará.
O clube pode afundar até desaparecer e isso é possível, assim como a perda de um ente querido.

Já não reconheço mais o meu Coritiba.

O que restou é a torcida, o que restou é a história, o que restou são todas as histórias contadas por meu pai, meu avô e meus tios. O que restou é o velho Couto. O que restou são as audições em ondas curtas no interior do RS nos anos 1970 e1980. O que restou foi eu gritar na janela do meu quarto em Camaquã em 1985: É campeão!

Enfim. O que restou são as memórias e isso me faz para sempre um COXA BRANCA.

SOU CORITIBA PARA SEMPRE!

Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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