Eu me odeio!
Os menos jovens devem lembrar de um personagem do Jô Soares no programa “Viva o Gordo” na TV nos anos 1980/1990, o Alvarenga.
Ele era encontrado se supliciando, ora colocando a mão na rede elétrica para tomar choques, ora colocando alfinetes por baixo da unha, enfim, causando sofrimento e si próprio. Quando um amigo perguntava a razão daquilo, ele respondia mostrando uma desilusão e a razão da autopunição. Por exemplo.
- Sabe quando disseram que as fraudes no INSS nunca mais aconteceriam? Eu acreditei! Eu me odeio! Tenho que sofrer.
Pois é o sentimento de que fui tomado ontem após mais um vexaminoso fracasso do nosso Coritiba, lembrando que no meu último texto eu tinha tecido louvores ao time e manifestado esperança de que novos tempos se anunciavam.
Como dizia o Jô Soares, eu acreditei. Eu me odeio.
Só não me puno fisicamente como o personagem em razão de a dor da humilhação ser mais forte do que qualquer outra física.
A psicanálise talvez explique a minha postura pelo desejo inconsciente de me iludir, de não ver a realidade por desejar outra melhor. De tanto sofrer nos últimos anos agi como o doente terminal que credita em curas milagrosas.
O que dizer de um time que como um todo joga mal e perde para um adversário da série D, que nos deu uma lição de vontade, atuação individual e tática? Como analisar um lateral direito que nem na corrida vence o adversário? E um pseudo jogador que, à frente da área adversária chuta para fora pela lateral? De jogadores que, mesmo não acossados pelos adversários não acertam passes? E de um Robson, limitado tecnicamente que ontem nem mesmo foi o esforçado que costuma ser? E do nosso avante criador de casos fora de campo – ontem se envolveu em mais um ao final do jogo – que cobra um pênalti que poderia ter sido decisivo correndo para a bola saltitante como uma bailarina ou um cervo na campina? Paro por aqui.
E eu, tolo, querendo me iludir, acreditei nesse time que nos últimos anos só dá vexame na Copa do Brasil. Eu me odeio, mereço sofrer pela minha falsa crença e teimosia.
Sobre o autor
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".
Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.
Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.
Sobre o blog
O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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