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Bola de Couro
Bola de CouroFelipe Rauen

Indiferença.


Há muito tempo, ao escrever sobre o Coritiba corro o risco de ser repetitivo. Acho que todos os amigos leitores também. O que nos resta para dizer? Repetir que temos um time fraquíssimo, mal montado por gestores inexperientes e incompetentes, comandado(?) por um suposto técnico que não consegue dar um mínimo de padrão de jogo ou levar o time a mostrar uma única jogada decorrente de treinamento? Ou quem sabe falar sobre a vida sexual dos lepidópteros seja mais fácil?

Vi muitas falhas no jogo contra o Fortaleza, mas como foram praticamente as mesmas de quase todos os jogos, hoje não vou analisar a carência técnica e tática de um time que desde o começo do ano ainda não jogou uma partida convincente sequer. Poderia falar no segundo gol do adversário, quando três dos nossos defensores praticamente ficaram pedindo autógrafo para o atacante. Poderia falar na péssima jornada do Thiago Lopes que há muito provou que não nos serve. Poderia falar do primeiro gol quando o Wilson (mal posicionado na origem do lance) ficou sozinho contra três atacantes. Poderia falar de tantas coisas, mas não o farei pois seria quase um copiar e colar.

Mas hoje me pareceu que devo ressaltar um aspecto que já vinha observando, qual seja a indiferença ou o descompromisso de muitos dos nossos atletas, que “nem estão” para o andamento do jogo e o resultado, atuando como um “barnabé” que apenas cumpre o expediente de olho no relógio e nada produz. Sem nenhuma ou com pouca técnica, temos jogadores para os quais parece que pouco importa se o Coritiba vai vencer ou não – desde que os seus salários sejam religiosamente pagos. Assim vejo Ullian Correa, Jonas Belusso, Yan Sasse, Rodrigo Ramos (!) e tantos outros. Assim vi na malemolência com que quase todos iam disputar as bolas, fugindo das divididas. Assim ouvi o técnico afirmando após o jogo que hoje – só hoje ?– foi uma jornada infeliz, transferindo a responsabilidade para os atletas, e querendo se iludir com a ideia de que temos time para subir.

E tudo isso coroado por uma administração que não se comunica, que não exige, e que se mantém impávida como se estivesse a navegar no sucesso. Uma administração que, indiferente, não vê o que está escancarado na sua frente, qual seja incompetência de quem vem indicando os pseudos jogadores contratados neste ano. Sei, estão procurando equalizar as dívidas; sei, pintaram o estádio; sei, tiveram uma iniciativa com a confecção própria dos uniformes que talvez possa dar certo. Tudo isso é bom. Mas e o futebol? O Coritiba não é uma empresa de auditoria, nem de decoração e também não de confecção de vestuário. O Coritiba é um clube de futebol, como já ressaltou neste espaço o confrade Sérgio Brandão. E futebol é o que menos tem.

A indiferença é um sentimento mais cruel do que a condenação ou o repúdio. E é contagiosa, pois vejo inúmeros torcedores afirmando desistir de acompanhar o time e associados desistindo de pagar (alguns como forma de protesto, é verdade), ou seja, indiferentes tais e quais o time e o comando do clube.

Este é o perigo. A indiferença ou descompromisso dos que estão dentro do clube está contaminando a torcida. E se há torcedores que nunca abandonam, na mesma intensidade há os que são torcedores de resultados. É assim, com maior ou menor intensidade, em todos os clubes de futebol. Mas no Coritiba os que não abandonam estão envelhecendo e o clube não está conquistando novos torcedores. Uma geração está se formando vendo o Coritiba que os seus pais, avós ou tios dizem ter sido um dia grande, mas que os jovens não conseguem ver.

O retorno à série A ainda é numericamente possível. Temos vinte e oito (28) pontos em cinquenta e sete (57) disputados, ou 48%. À frente temos a disputa por mais cinquenta e sete pontos (57). Considerando o histórico dos últimos campeonatos da série B, com sessenta e seis (66) pontos talvez seja possível se classificar. Ou seja, no segundo turno temos que somar trinta e oito pontos (38), equivalente a 58%, pelo menos. Difícil para um time que não fez nenhuma apresentação convincente em todo o ano e que muitas vezes venceu mais pelo acaso ou pela sorte. O horizonte é nebuloso, quando não muito escuro.


Sobre o autor

Felipe Rauen
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".

Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.

Sobre o blog

O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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