Ultrapassados em mais uma volta do circuíto.
Vou adaptá-lo hoje, diante da história que se repete e se agrava, e do sentimento de inferioridade de que devemos estar acometidos, o qual só nega quem não quer ver. Dei àquela coluna o título de “Ultrapassados”, e agora, fazendo uma analogia com corridas de automóveis, sinto que se fomos superados pelo rival naquela volta do circuito, ontem ele deu mais uma volta na corrida e nos mantém a diversos pelotões de distância.
Ontem, assistindo ao jogo da decisão da Copa do Brasil, o que fiz tanto por curiosidade como para tentar “secar” o nosso rival, a certa altura da partida bateu-me um sentimento de depressão.
Senti naquele momento, mais uma vez, o que aos poucos vem me amargurando e o que certamente grande parte da torcida vem sentindo há algum tempo. A verdade é que não somos mais o maior clube de futebol do Paraná. Fomos no século passado, mas este século está sendo do rival. E pior, nem nos mantivemos no mesmo lugar, estamos caindo aos poucos.
Dói dizer isso, mas os fatos não permitem afirmar de modo diferente.
Talvez alguns atirem pedras em mim, comportando-se como a avestruz que diante do perigo esconde a cabeça sob a terra, mas não podemos mais nos manter passivos como se as nossas glórias do passado cada vez mais remoto ainda estivessem presentes. A nossa história, que irá completar 110 anos no próximo mês é inapagável, temos que cultuá-la e honrá-la, mas, gostem ou não alguns, a verdade é que aos poucos fomos sendo ultrapassados pelo rival – que ontem faturou, além do título, R$ 52.000.000,00, mais do que toda a nossa receita no ano - e no atual quadro de distância qualquer revolução ou refundação do Coritiba só poderá nos igualar a ele depois de alguns – talvez muitos - anos de ações bem diferentes das que de modo conservador ou irresponsável têm sido praticadas.
Temos que reconstruir ou refundar o nosso clube sem medo de ousar, mudando o modo de administrar e sem ações deletérias entre os homens que podem fazer algo de positivo. Uma grande concertação deveria acontecer, de modo a fazer essa revolução ou refundação, insisto no termo. A nos mantermos como tem sido nos últimos anos, a cada dia a distância que nos separa do rival ficará maior e a gangorra nos manterá na parte de baixo.
O estatuto tem que ser modernizado para o clube ser gerido de modo eficaz, sem grandes e inoperantes conselhos, e sem adoção de políticas de gestão, mas sim de clube – refiro-me à manutenção de estratégias bem-sucedidas, quando elas existirem, claro, o que não se tem visto – e o comando do clube não pode ser alcançado com a participação decisiva, nas eleições, das torcidas organizadas que deveriam quando muito se limitar às arquibancadas. Não se trata de não deixar democrática a eleição, claro que todos os associados podem e devem votar, mas se trata de afastar que as torcidas organizadas, atuem como instituição - como tendo em si mesmo uma prioridade - fechando questão em torno de determinado candidato, o que ocorreu nas duas últimas eleições e o custo disso estamos pagando.
Eu temo muito que com a minha idade não consiga viver o suficiente para ver o Coritiba novamente grande e respeitado. Ser grande e respeitado não se limita a voltar para a primeira divisão e nela permanecer ou ganhar as desvalorizadas competições estaduais. Significa deixar de ser coadjuvante, quando não mero figurante dos grandes campeonatos, e ter protagonismo. Buscar títulos, se impor como instituição, sair das fronteiras do Estado e quiçá do país, saber criar meios para auferir receitas, ter um quadro social que não seja volátil, enfim, administrar o clube com um modo visionário/responsável.
Se isso não acontecer logo, se as ações no Coritiba continuarem limitadas ao pensamento pequeno desse grupo de jovens que assumiu a direção e que age tal e qual os jurássicos que já passaram por ela, se parte da torcida continuar se iludir e se satisfazer com o passado ou com a ideia de que só voltar à primeira divisão será uma redenção suficiente, se nomes de peso não se articularem em uma concertação em benefício do Coritiba, e só do Coritiba, é triste dizer, mas continuaremos sendo o segundo clube de futebol do Paraná.
Fico triste ao escrever essas linhas, mas é o desabafo de alguém que assistiu ao primeiro jogo do Coritiba em 1955 e que se recorda das escalações daquela década, que quando pré-adolescente certa vez “furou” para não pagar ingresso e poder ver um jogo, que frequentou todos os cantos do estádio, que chegou a viajar doze horas de carro para ver um jogo, que se mantém associado ainda que raras vezes possa ir ao estádio, e que mesmo fisicamente distante cultua e defende o clube. Não imaginava que estaria há tanto tempo vendo o Coritiba tão apequenado e sem perspectivas.
Perdoem o tom de depressão deste texto, mas é pura realidade e imagino que os coritibanos conscientes devem pensar como eu. Claro que jamais abandonarei o meu amor pelo Coritiba pois, como me disse certa vez o meu filho Alexandre ao me ver deprimido em face do clube, o que importa é o amor envolvido e a paixão que existe e não diminui mesmo nos piores momentos. Mas está difícil.
Sobre o autor
Benedito Felipe Rauen Filho, conhecido como Felipe Rauen, é coxa-branca de terceira geração, pois tanto seu avô como seu pai também o eram. Em parte da infância e da juventude morou na rua Maria Clara, a cem metros do estádio do Coritiba, do qual desde casa sentia o "cheiro".
Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.
Transferiu residência para o Rio Grande do Sul em 1976, onde iniciou carreira como Juiz de Direito, hoje aposentado. Está aculturado naquele Estado em vários aspectos, mas jamais no futebol, pois não adotou time local e torce somente para o Coritiba. É conhecido em todos os círculos que frequenta em terras gaúchas como coxa-branca, conseguindo que inúmeros amigos gremistas e colorados tenham o Coritiba como segundo time ou pelo menos mostrem por ele simpatia. Em 2009 se tornou Cônsul do Coritiba em Porto Alegre, permanecendo por vários anos. Cardiopata, dá trabalho regular ao cardiologista em razão das emoções vividas com e pelo Coritiba, mas tem certeza de que o coração coxa-branca se manterá forte ainda muito tempo para ver o clube alcançar mais e mais glórias.
Sobre o blog
O nome “Bola de Couro” serve para revelar a geração do autor, que acompanha o Coritiba desde o tempo em que elas eram efetivamente de couro natural, e não sintéticas como hoje. Além de estar atento ao futebol moderno, especialmente graças à tecnologia que tornou o mundo uma aldeia global, o blog de vez em quando trará algumas reminiscências das tantas glórias de que o Coritiba é coberto e que estão mais na memória de cada um do que em imagens físicas, atendendo também a um nicho da “velha-guarda” de Coxanautas que se manifestou desde a primeira coluna do autor. Mas todos, de qualquer geração, serão bem-vindos a colaborar e criticar em espaço que se pretende democrático.
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