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Coritiba | 12/04/11, 10h00

Coritiba de Itabaiana


Por Fernando Costa Straube

Lembro com muita alegria o primeiro jogo do Coritiba a que assisti no gigantesco estádio que, na época, chamava-se “Belfort Duarte”. Era uma noite de 4 de outubro de 1972 e o Coxa venceu o América (MG) pelo placar de 2x0. Parece que foi hoje que vi a defesa sensacional do Jairo e, logo depois, o Nilo tirando a bola em cima da risca... Na época eu tinha 7 anos de idade e sequer imaginava que muito longe dali, poucos dias antes, uma figura iluminada havia realizado um sonho diretamente relacionado com o meu clube. Um sonho, diga-se de passagem, totalmente desconhecido da maior parte dos coxas-brancas.

Essa figura era José Wilson Gia da Cunha, ou simplesmente Gia, como é conhecido em Itabaiana, importante cidade nordestina situada no centro de Sergipe, às portas do agreste. Gia é político – foi vereador e deputado federal – mas vive para o futebol e seus olhos brilham ao ouvir a palavra mágica: Coritiba!

Em 10 de setembro de 2009, na companhia dos amigos Marcelo A.Villegas e José Edmilson de Jesus Souza, tive a sorte - e a enorme honra - de conhecer pessoalmente esse grande empreendedor. Durante nossas pesquisas ambientais na região, separamos um tempo de folga para ir em busca da sede do irmão sergipano do meu time. Bastou perguntar para alguns moradores do local para sermos logo informados: “O clube fica ali, no fim da rua Coronel Sebrão, onde os muros e as construções são todos pintados de verde-e-branco”. Maravilhosa recepção para um coxa-branca que, naqueles rincões do nordeste brasileiro, apenas escuta falar de times do sudeste como Corinthians, São Paulo, Botafogo e, especialmente, “aquele outro time rubro-negro”, nome que Gia se recusa a pronunciar...




Depois de dar algumas voltas na quadra, tirando fotos e observando o pequeno campo gramado, suas construções e toda a estrutura edificada, resolvemos ir mais a fundo. Onde estaria alguém que pudesse nos informar sobre o clube? Foi fácil. A casa de Gia é do outro lado da rua e, ao saber que haviam visitantes – um deles coxa-branca – apressou-se a interromper sua sesta e vir ao nosso encontro.



Daí para a frente tudo fluiu com a tradicional facilidade de comunicação própria do povo sergipano. Gia mandou pegar o grande molho de chaves e, com atenção e hospitalidade, abriu uma a uma as portas da sede, revelando coisas que eu jamais imaginava que existissem ali, a mais de 2 mil quilômetros da minha cidade.

Sentamo-nos embaixo de uma árvore cercada por uma mureta, e o amigo passou a contar alguns detalhes da história do time: “Em 1971 fui assistir a uma partida amistosa entre o time de nossa cidade, chamado de Itabaiana, e o Coritiba, lá do Paraná. O jogo foi no Estádio Presidente Médici, daqui da cidade. Fiquei impressionado com o uniforme e as cores do time paranaense. Gostei especialmente do desempenho de dois atletas, o Tião Abatiá e o Paquito, que jogaram muita bola naquele dia, quando o Coritiba ganhou pelo placar de 4 a zero”.



Essa partida ocorreu em 24 de outubro e, além de um gol contra, os marcadores foram Paquito, Leocádio e Krüger; o gol deste último – segundo consta – teria sido uma verdadeira “pintura”. Gia, como se vê, dirigiu-se a uma das mais sensacionais formações do Coxa, da qual participavam, dentre outros: Jairo, Zé Roberto, Aladim e Dirceu, todos eles citados durante a entrevista! Esse mesmo time, relembramos, foi campeão paranaense no ano seguinte, além de receber o título honorífico da “Fita Azul” por ter retornado invicto de uma excursão ao exterior e, além disso, destacou-se pela quinta colocação no Campeonato Brasileiro. Em 1973 o time, considerado fortíssimo, conquistou o “Torneio do Povo”, disputada competição de âmbito nacional.

Daquela partida contra a hoje denominada “Associação Olímpica Itabaiana”, Gia lembra que a população da cidade, com exceção dos simpatizantes do tricolor do agreste, ficou muito empolgada com a belíssima partida e, por muitos anos, relembrou a visita do clube paranaense. Isso fez com que ele, sem nenhuma hesitação, fundasse, na data histórica de 14 de setembro de 1972, um novo clube, inspirado no irmão sulino: Coritiba Foot Ball Clube, com sede na cidade de Itabaiana.

Com o tempo, o Coxa de lá foi crescendo. Aumentando a equipe e com grande abnegação, fortificou-se pela inclusão de projetos para a prática do futsal. Nesse tipo de competição conquistou os títulos da Copa do Nordeste (1992), Copa Norte-Nordeste (1998) e sete edições consecutivas do campeonato sergipano, entre 1993 e 1999. No futebol, atingiu excelentes colocações nos certames estaduais e regionais, lutando bravamente contra clubes de maior expressão como o Sergipe, Confiança e o próprio Itabaiana. Ao auge ocorreria em 1999, com a conquista do campeonato estadual da segunda divisão.



Mas nem tudo são glórias e alegrias. A grande dificuldade financeira enfrentada por Gia, sua equipe e por todo o clube, se manifestou de maneira devastadora, ao tempo em que momentos de recessão tomaram conta do País. Entre 2008 e 2009, por exemplo, o clube foi punido pela Federação Sergipana de Futebol, por não ter obtido verbas para prosseguir no torneio estadual, situação contra a qual vem lutando com todas as forças, na tentativa de retornar à competição.

Essa condição determinou um declínio financeiro grave para a agremiação que, atualmente, apenas funciona com olhos voltados para as categorias de base e para a escolinha de futebol, que abriga os talentos juvenis locais. A estrutura do estádio e das edificações também dão mostras do abandono e da dificuldade de se conseguir recursos.






Percebe-se que o nosso irmão do Agreste em nada se assemelha ao Alto da Glória curitibano, atualmente em uma fase importante, na qualidade de campeão paranaense e de retorno à elite do futebol brasileiro.

O insuperável Gia tem planos para o futuro. Tem projetos e ideias, mas precisa de colaboração. Não se resume a ajuda financeira, o que dificilmente se concretizaria. Alude ao nascimento de um espírito colaborativo ligado à busca de simpatizantes pelos interior do Brasil e principalmente por uma presença mais marcante do “irmão mais velho” na cidade de Itabaiana. Ele acredita que se o Coritiba do Paraná fizesse excursões pelo interior do nordeste, notadamente em áreas com menores índices de desenvolvimento humano, poderia arregimentar torcedores empolgados, repetindo o momento ocorrido nos anos 70. Ali, devido ao poder da mídia, a saturação promovida por clubes do sudeste chega a ser irritante, onde quase todas as pessoas torcem para o Flamengo e, por causa disso, quase não há espírito competitivo.

Segundo Gia, “se os dirigentes do Coritiba viessem para cá trazendo apresentações amistosas ou apenas enviando olheiros para ver o nosso futebol, ficariam impressionados com a qualidade desta nova geração”. Ele está certo. Futebol não se faz apenas dentro dos gramados e nas câmaras das federações; é resultado de uma paixão que se alastra surpreendentemente. Mas é preciso que haja interesse.

Esperamos que o Coxa do Alto da Glória olhe com mais atenção os mundos que existem do outro lado das fronteiras da capital paranaense. Que mobilize sua política, estrutura, planejamento e, principalmente, sua torcida, visando a projetos de intercâmbio, tipo de iniciativa que foi esquecida pela maior parte dos times brasileiros.

E que novos ventos vindos do magnífico cenário da Serra de Itabaiana, ajudem o nosso irmão sergipano a cumprir sua missão!

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História do Coritiba – O passado apresentado ao futuro
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